imageO teatro, o humor, a rádio, o teatro radiofónico, a banda desenhada, a edição, o jornalismo moçambicano, o cartoonismo, a irreverência, o comentário político, a crítica social, etc, acabam de perder uma das suas figuras mais emblemáticas: João Machado da Graça morreu hoje no ICOR (Instituto do Coração) em Maputo.

O escritor Mia Couto, logo que soube da tragédia, escreveu este depoimento, a meu pedido : “Fica deste homem aquilo que faz um homem: a palavra solidária e empenhada, as ideias sem preço, uma ética que não se submeteu perante benesses, ameaças ou favores. Com igual coerência conviveu com os amigos, com os colegas e com a profissão de jornalista e com as artes que fazia e apoiava fazer. Essa sua coragem e verticalidade fica como um exemplo. Os inimigos não foram capazes de o dobrar. Os amigos farão dobrar a morte que apenas na aparência o levou do nosso convívio. Obrigado, Machado.”

Quando eu era criança uma das vozes que mais ouvia na Rádio Moçambique era a voz que representava uma personagem da saga “Sandokan: Os Tigres da Malásia”. Mas tarde vim a saber que essa voz era do Machado e que aquele Sandokan era um inédito do Hugg Pratt, o autor de Corto Maltese. Moçambique já teve um teatro radiofónico de qualidade mundial. Como sou um pouco novo, minhas memórias do Machado são mais públicas do que de uma privação fruida. Por isso, são memórias de todos nós.

Quem não se lembra da Kurika, o suplemento de banda desenhada do jornal Domingo. Pois o Machado teve esse dom. O de tornar o encartável mais relevante que a publicação de suporte. Houve quem comprasse o Domingo para ler a Kurika. Isso aconteceu também mais recentemente com o SAVANA. Seu suplemento humorístico “Sacana” era, às vezes, mais suculento que o proprio jornal… e ele fazia questão de brincar com isso. Sua entrega ao projecto da Mediacoop foi desta a primeira hora. E creio que nunca falhou uma edição. Tal como a sua crónica política, sob o título de “A Talhe de Foice”. Imagino a perda para a SAVANA. Imagino.

Machado era um homem de mil ofícios, um criador da excelência. Quando na Mediacoop se deu a ruptura entre o Carlos Cardoso e seus colegas cooperativistas, em 1997, ele, que era amigo de todos, não tomou partido. Manteve o Sacana e a Talhe no SAVANA (cujos originais fazia questão de levar pessoalmente em mão, todas as quartas-feiras) mas ofereceu logo ao Cardoso e ao seu Metical uma coluna semanal a que deu título de “Perguntar Não Ofende”. Alí, ele arrolava umas questões politicamente incorrectas que colocavam vários governantes em xeque. Sua vida foi muito mais do que contribuir para jornais. O teatro Mapiko, ao ar livre, da Casa Velha, cujo grupo ja levou Sófocles ao palco, teve a sua mão. Certamente uma coisa era sua paixão primeira: rir e fazer rir. Rir até ficar rouco!, deu ele o nome a um dos seus livros. Machado morreu esta tarde vítima de uma cancro hepático.

(*) Texto de autoria de Marcelo Mosse

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