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Vivemos um momento de refluxo. Apanhados no meio da confusão das águas, lutando para respirar, é natural que tudo isso nos pareça o fim do mundo. Talvez seja alguma outra espécie de fim, mas não do mundo, nem sequer, longe disso, da presente civilização. Se conseguirmos emergir um instante e afastar a espuma dos olhos perceberemos o quanto avançamos. O planeta era, ainda há poucas décadas, um lugar muitíssimo mais sombrio e perigoso. No final da II Guerra Mundial só havia em África quatro países independentes. Quando eu nasci, em 1960, o apartheid estava forte e firme, e os regimes democráticos pareciam delicadas e precárias excentricidades. Meia dúzia de estrelas brilhando numa noite escura. Muitas democracias estavam em risco, sobretudo na América Latina. Em vários países, incluindo o Brasil, os militares acabariam tomando o poder e instituindo regimes totalitários. Havia guerras explodindo por toda a parte. Os anos sessenta assinalam, aliás, o início da luta armada em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau.

Olhando apenas para o mundo lusófono vivemos hoje uma paz inédita. Pela primeira vez na História não existe guerra declarada em nenhum dos territórios onde se fala a nossa língua. Além disso, todos esses países são formalmente democráticos. Bem sei que o regime angolano está longe de constituir uma democracia autêntica. Ainda assim, acho preferível uma ditadura disfarçada de democracia do que uma ditadura orgulhosa da sua condição. Numa ditadura disfarçada de democracia existe ao menos o reconhecimento público e generalizado da superioridade do modelo democrático.

Não estou a dizer que não enfrentamos perigos. Os perigos são muitos e o recuo é claro. Em Moçambique, têm-se verificado ao longo dos últimos meses confrontos (mais ou menos abafados) entre o exército e guerrilheiros do principal movimento da oposição. Não se pode aceitar que um partido com assento parlamentar mantenha soldados armados tantos anos após o fim da guerra civil. Por outro lado, também não se compreende o reiterado desprezo com que as elites urbanas do país insistem em tratar o resto da população, ignorando as reivindicações das províncias do norte. O novo presidente moçambicano, Filipe Nyusi, parece ser um homem honesto, idealista, não comprometido com a corrupção. O seu maior desafio será conseguir controlar a ala conservadora e corrupta do próprio partido, a Frelimo, a qual vê na crescente inquietação social uma possibilidade de o afastar e retomar o poder.

Em Angola, o presidente José Eduardo dos Santos prepara-se para passar o poder (todo o seu ilimitado poder) à filha mais velha, Isabel dos Santos, que se orgulha de ser a mulher mais rica de África. O primeiro passo terá sido a nomeação de Isabel para o cargo de presidente do conselho de administração da Sonangol, a (ainda) próspera, embora muito mal gerida, petrolífera estatal. A nomeação de Isabel foi recebida com enorme desagrado, gerando desconforto até no interior do partido no poder, o MPLA. Nos últimos dias o governo angolano libertou 17 jovens ativistas, num esforço para atenuar a inquietação generalizada. Os próximos tempos serão com toda a certeza muito agitados.

No universo lusófono (e para além dele) Portugal e Cabo Verde assemelham-se a minúsculos oásis de placidez. Um tédio. Um bendito tédio.

Grande parte da angústia e tumulto destes dias, no Brasil, em Angola, Moçambique, e por esse mundo afora, tem uma mesma origem: a democratização da informação, imposta pelas novas tecnologias, da qual resulta uma maior transparência. A classe política de todos os países em causa, corrupta até aos ossos, sente-se ameaçada e confusa. Rosna, mostra os dentes, e eventualmente morde. A médio prazo, porém, está condenada. Não sobreviverá.

Acredito que, passada a tempestade, virá uma longa e fértil bonança. Mas o temporal está aí, chove, venta e troveja, e os céus não se vão acalmar tão cedo. O mar vai agitado e é preciso que nos preparemos para enfrentar ondas ainda mais altas. Urge criar redes de reflexão globais. Escutar a juventude. Erguer pontes. Imaginar projetos de transição que possibilitem a todos os países em crise renovar as suas classes políticas, evitando guerras civis, e progredindo para democracias mais sólidas e sofisticadas.

Quando tudo vai bem é possível ignorar os sonhadores. Prescindir deles. Tratá-los como loucos. Mas em períodos como este, em que tanto está em causa, só o sonho, isto é, a imaginação, nos pode salvar. O que conseguirmos sonhar é porque pode ser feito — é porque tem de ser feito.

In oglobo.com

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