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Joaquim Chissano, antigo presidente de Moçambique

O ex-Presidente moçambicano Joaquim Chissano afirmou hoje que a crise entre o Governo de Moçambique e o Fundo Monetário Internacional (FMI) e Banco Mundial (BM), desencadeada em Abril, deveu-se a um “deslize” das autoridades de Maputo.

Em causa está a ocultação de dívidas nas contas públicas por parte do Governo moçambicano, que reconheceu, antes de o FMI e BM realizarem uma missão de avaliação, entretanto cancelada, a Moçambique, ter empréstimos ocultados nas contas do Estado e que aumentaram a dívida pública de 42% para 70% do Produto Interno Bruto (PIB), ascendendo a 11,66 mil milhões de dólares, dos quais 9,89 mil milhões são dívida externa.

Em declarações hoje à agência Lusa, à margem da Conferência Moçambique – Portugal, que decorreu em Cascais, Joaquim Chissano admitiu que a “inadvertência” do Governo moçambicano “afectou” a credibilidade económica do país, já de si debilitada com a crise militar no norte do território.

“Ressurgiram alguns actos de violência, embora localizados, mas que provocaram um momento difícil que retraiu, de certa forma, o entusiasmo dos investidores. Mas os verdadeiros amigos sabem compreender que se trata de algo conjuntural e que já houve momentos mais difíceis que foi possível ultrapassar”, sublinhou.

“Também há a dificuldade da parte económica que foi criada por um, não sei como dizer – porque são questões ainda em investigação e não gosto de pôr rótulos às coisas. Talvez o mais que posso dizer é que houve um deslize ou inadvertência, ou qualquer coisa, que criou problemas de desconfiança dos doadores, das instituições de Bretton Woods, o que cria também uma tensão no país”, explicou.

Para Chissano, trata-se de assuntos que “devem ser encarados com muita paciência e com vontade de trazer soluções mais do que apenas castigos”, de forma a ultrapassar-se esta fase, seguindo para uma “nova actividade positiva”.

O antigo Presidente moçambicano (1986/2005) defendeu que a credibilidade de Moçambique no exterior “não necessita de ser recriada”, uma vez que “não desapareceu”, admitindo, porém, que tudo depende da “boa vontade” com que se vê o “erro”.

“Depende da boa vontade de encarar um erro, se é que é isso que se deve dizer, e que não pode descredibilizar tudo, ou toda a base (de confiança) criada. A base está lá”, sustentou Chissano, que, quinta-feira, recebe em Lisboa o Prémio Norte-Sul.

Na conferência, organizada pela Mozefo, uma instituição moçambicana que privilegia o diálogo e a acção em prol do desenvolvimento de Moçambique, Chissano destacou o “potencial económico” do país, que agora conta com mais oportunidades depois da descoberta de importantes jazidas de petróleo e de gás.

Apelando ao investimento dos empresários portugueses em Moçambique, o antigo chefe de Estado moçambicano lembrou as oportunidades que se abrem nas áreas da formação de quadros e profissional, infraestruturas, portos, agricultura, pecuária, floresta e agronegócio – “são 35 milhões de hectares de terra arável”.

O turismo, com uma costa índica de 2.750 quilómetros, e sobretudo o petróleo e o gás – “põem Moçambique na rota do investimento” -, transporte de mercadorias – “sobretudo para o interior da África Austral” -, e energia são outras das áreas de potencial investimento defendidas por Chissano.

“Mas os desafios, para já, são a paz e a consolidação da democracia e do Estado de Direito, pilares principais, que se alimentam mutuamente”, sustentou, salientando que é nos momentos difíceis de um país “que se vêem os amigos”, para que se possam proporcionar “mais valias, complementaridades e parcerias empresariais” com o sector privado.

“Quem quer investir em Moçambique, não deve recuar perante as dificuldades”, concluiu o antigo chefe de Estado moçambicano.

Fonte: Lusa

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