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Filipe Nyusi e Rebelo de Sousa falando a jornalistas em Maputo/Foto Ferhat Momade (AIM)

O tema continua sensível. Os portugueses são europeus por evidência e opção mais ou menos expressa (podia ser mais). Mas também são africanos (entre outras coisas do mundo) pela História, pelo sangue, pelas vidas comuns feitas e desfeitas nas regiões tropicais.

Durão Barroso, que agora se despede da política (não sabemos é se a política se despede dele), disse um dia que os portugueses “amam demasiado África”. E por isso esperam e desesperam, até ao paroxismo, com todas as turbações e alegrias desta.

Escrevi então, em resposta, que isso era melhor do que amar África de menos. A verdade é que, mesmo na geração mais recente de portugueses, os PALOP pesam: por razões familiares, por projectos de vida, por afectos, por influências e até por repulsa e raiva.

França, o Reino Unido, e em muito menor escala (e com muito mais conflitualidade) a Bélgica, Espanha, Itália e a Alemanha possuem memórias africanas. Mas do Minho às Ilhas Atlânticas, e por toda a diáspora lusíada, os ecos de África não são meros recortes de livros, fotografias amarelecidas, ou projectos de trabalho. São tudo isso também, claro, mas muito mais. Trata-se de um projecto prático por fazer. E que se faz, e se perde, todos os dias. Transformá-lo, pelos actos, no desígnio nacional de que se fala, é a arte que falta.

A primeira visita “de trabalho” de António Costa foi a Cabo Verde. Mas houve mais cultura do que agricultura, e mais negócios estrangeiros do que desenvolvimento interno. Foram as queixas que ouvi na Praia.

Havia a percepção de que, durante o consulado Passos-Portas, e antes ainda, na vigência do socratismo, certas nações africanas, como a nossa querida Angola, faziam em Portugal “os negócios que queriam”. Oito ou oitenta. Pelo menos até às crises que conhecemos, espero que terminadas com a nova ministra da Justiça.

E há a dimensão (i)mediática. Vimo-la agora.

Também filho adoptivo da terra, Marcelo pode ter feito mais pela cooperação e reconciliação Portugal-Moçambique, e Moçambique-Moçambique, do que muitos políticos profissionais.

Ao fazer justiça a muitos cooperantes, investidores e espíritos solidários que, nas últimas décadas, têm trabalhado silenciosamente para que a vida melhore, e a morte deixe de crescer.

Ao mostrar que é preciso só sinceridade, ternura e inteligência para lembrar ao topo dos Estados os laços comuns entre os dois povos: o pai e o filho.

Portugal deixou muito do seu melhor, em civis e militares, neste chão moçambicano. Que não podem ser esquecidos entre o capim, em túmulos delapidados.

Mas não são só memórias de sangue. Moçambique, apesar de todos os males, possui uma “sociedade civil” forte, organizada, jovem e promissora. Uma camada intelectual e artística de grande nível, uma imprensa desejosa de verdade e investigação, uma universidade que quer crescer, um tecido económico que, apesar do conflito e do pântano estatal, tem ideias.
Moçambique não é apenas Frelimo e Renamo, e a disputa entre os dois. O MDM, por exemplo, apresenta-se como uma força eficaz, viável e inteligente.

A carta dada a Marcelo pela sobrinha de Afonso Dhlakama (brilhante e jovem líder parlamentar) será só, certamente, uma parte da verdade. Mas ajuda a entender que há uma guerra civil surda em Moçambique. Que é a soma de todos os medos, delitos e omissões: intolerância, corrupção, ganância, cegueira política, arrogância, insistência em formas desequilibradas de desenvolvimento, que deram mau resultado noutros sítios.

Há que respeitar a ordem interna dos Estados e dos povos. Mas não interferir não pode significar não ter opiniões. E não dar conselhos, pelos canais próprios.

Estará esta presidência talhada para grandes projectos de reconciliação africana, incluindo o desfazer de equívocos?
Queira Deus que sim. Porque há muito a fazer. Além dos símbolos, com firmeza, cria-se trabalho nas nações que falam a mesma língua.

Mãos à obra.

Por Nuno Rogeiro, in sabado.pt

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