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(Foto: Bruno Alves/Flipoços)

“Estás louca? Quem vive de literatura em Moçambique?”, brincou o poeta Mbate Pedro, de 38 anos, com a repórter do G1 durante uma entrevista em que contou também ser médico e já ter actuado no programa Médico Sem Fronteiras. Ele foi destaque da programação do Festival Literário de Poços de Caldas (MG), o Flipoços, que terminou neste domingo (8). Durante 8 dos 9 dias do evento, ele circulou por estandes, fez amizade e praticou o hábito que mais o agrada: ouviu e contou histórias.

Actualmente a trabalhar como agente de políticas públicas na área da saúde em Maputo, capital do país onde vive, Mbate Pedro define a própria vida. “A medicina é também uma forma de arte”. Paralelo ao ofício em que cursou na universidade, ele também divide a administração de uma pequena editora, a Indico, que publica novos autores no local em que vive. “Em Moçambique temos apenas três ou quatro grandes editoras”, diz.

Por isso, visitar o Brasil num festival literário era um sonho para o moçambicano. Embora a taxa de leitores do país seja bem abaixo do ideal,  ele reconhece que é maior em Maputo e que o fluxo de novos poetas e editores é também favorecedor. Com a obra “Debaixo do silêncio que arde” ele recebeu uma menção honrosa do Prêmio Glória de Sant´Anna 2015, e foi também o vencedor do Prêmio BCI para o melhor livro publicado em Moçambique em 2015.

Estas premiações lhe renderam o convite para participar no Flipoços e dividir uma mesa com os escritores portugueses Luis Serguilha e Nuno Camarneiro (vencedor do Prêmio Leya), cujo tema foi “Minha língua não tem pátria”. Envolvido com a literatura desde os 15 anos, tendo duas publicações anteriores, Mbate define o actual livro como o melhor feito por ele até o momento: “Este é, sem dúvida, meu livro mais maduro, em que eu mergulhei mais a fundo no universo das palavras, porque, como diz Mia Couto, ‘é preciso namorar com a língua’ e foi isso que eu fiz com a última obra. Não sei se mereço o prêmio, mas fiquei muito feliz, e mais ainda por estar no Brasil pela primeira vez”, disse.

Aliás, o autor moçambicano e bastante conhecido no Brasil, Mia Couto, é amigo de Mbate, porém, ele se surpreendeu com o sucesso do conterrâneo no país. “Tem muitos livros dele editados directamente no Brasil. Quando eu vi isso e o carinho com que as pessoas falam dele, mandei uma mensagem dizendo: ‘tu és um pop star no Brasil’”, brincou.

No entanto, apesar do prêmio, ele comentou sobre as dificuldades de ser escritor num país ainda em desenvolvimento. “Lá os novos poetas não têm muita voz ou vez. É complicado penetrar no mercado editorial. O meu primeiro livro saiu pela Associação de Autores Moçambicanos. Agora, tenho esta editora com outros amigos, mas, ainda é complicado. Moçambique é um país que lê muito pouco e onde não há subsídio do governo para a literatura. As tiragens normalmente são de 300 a 400 exemplares e vende-se a conta-gotas. Costumamos brincar que há mais escritores que leitores”.

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Mbate Pedro durante palestra no Flipoços, em Poços de Caldas (Foto: Bruno Alves/Flipoços)

Porém, mesmo assim, Mbate Pedro fez questão de doar o valor recebido com a venda dos livros na feira para a Associação Cultural Chico Rei, de Poços de Caldas. O órgão zela pela preservação e manutenção da cultura negra na cidade e após um bate-papo com representantes, o autor fez questão de ‘devolver’ à cidade o carinho recebido.

A proximidade com a cidade, os leitores, autores e público do Flipoços também já lhe renderam um convite, anunciado pela organizadora do evento, Gisele Corrêa Ferreira. “Ano que vem, o nosso país homenageado será Moçambique e está mais do que convidado para voltar”, disse.

Médico e poeta sem fronteiras

Para Mbate, as duas profissões se misturam e ele quis seguir os passos da mãe, uma enfermeira, ao se formar em medicina. Estudou na Bélgica, teve aula com médicos cubanos e durante três anos, actuou na organização de ajuda humanitária Médico Sem Fronteiras, onde revela ter aprendido muito.

“Foi um tempo muito feliz, em que eu realmente podia ajudar quem precisava, nas áreas mais remotos de Moçambique, no entorno de Maputo. Era uma rotina de trabalhar 24 horas sem descanso, mas muito gratificante. O país ainda tem muitos desafios com a saúde, como por exemplo, reduzir a taxa de HIV , já que o último inquérito divulgado mostra uma taxa de 11% da população adulta infectada e muitas crianças ainda morrem de malária”, contou.

Contudo, ele revela que usa “a medicina para dar pão e vinho ao poeta” e que a poesia nunca o abandonou, mesmo quando estava em campo, trabalhando como médico e ajudando a salvar vidas. “A literatura sempre ocupou um papel central na minha vida. Minha mãe era enfermeira e dos 7 filhos dela, eu quis seguir esse caminho, mas, muitas vezes, chega a ser engraçado, porque a inspiração, a criação, o desejo de escrever algo chega enquanto estou trabalhando, na frente dos meus chefes”, detalhou.

No dia a dia, ele trabalha como médico e divide a vida de casado há 7 anos com Célia Langa, que é jurista, mas actua participativamente na vida literária, como revisora gramatical do livro. “É engraçado que ela não gostava de literatura e agora me ajuda”.

E como não tem fronteiras para a medicina, com a poesia não poderia ser diferente. Mbate Pedro já esteve em Portugal para lançar o livro – e se deslumbrou com as filas formadas horas antes da abertura do evento e do alto interesse pela leitura – e também já foi traduzido para o italiano e lançado num evento literário em Turim.

“Tem sido bom e importante viver isso. Ainda não consigo viver da literatura, mas é um sonho, embora eu goste muito da medicina também. Eu tomei uma decisão e vou me dedicar à ela. Quero ter mais tempo criando, mais tempo envolvido com a literatura”, finalizou.

Por Jéssica Balbino, in G1.Globo.Com

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