A portuguesa Rádio Renascença entrevistou D. João Carlos Nunes, a propósito da visita do Presidente da República a Moçambique.

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D. João Carlos Nunes

O bispo auxiliar da Arquidiocese de Maputo, D. João Carlos Nunes, admite que um apelo por parte do Presidente português pode ajudar a desbloquear a construção da paz em Moçambique.

D. João Carlos Nunes, também responsável pela Comissão de Comunicação Social da Conferência Episcopal moçambicana, fala em “alguns constrangimentos” e diz que é necessário haver cedências das partes em conflito.

Que Moçambique vai Marcelo Rebelo de Sousa encontrar? Sabemos, à partida, da tensão político-militar…

Vai encontrar uma situação que não é muito tranquila ou desejável. O que vemos imediatamente, e o povo vê imediatamente, é o custo de vida. Os preços aumentam significativamente, sobretudo os preços dos alimentos básicos. Há uma contenção ainda no pão, mas em alguns sítios também já começou a subir. O custo de vida é que se reflecte imediatamente.

Depois, há certas ocorrências. Quanto à questão da tensão político-militar preocupa-nos, porque se vai arrastando. Procurou-se dizer que era bastante localizada, não era uma questão do país, só que vai-se alastrando um pouquinho, sobretudo no Norte e centro, e vai afectando. Como esta situação não se resolve, não se supera, começa já a preocupar e tem implicações.

Que passos têm sido dados pela Renamo e pelo Governo de Moçambique no sentido de estancar essa crise político-militar?

O Presidente, oficialmente, já se pronunciou convidando o líder da Renamo para o diálogo, mas não basta ter essa vontade de se encontrarem. Isso é bom, mas é necessário que se criem condições de segurança, saber onde.

Desde logo, é preciso que haja uma mediação. Afonso Dhlakama, por exemplo, condicionou eventuais conversações a uma mediação da África do Sul, da Igreja Católica ou da própria União Europeia.

Pois, a Renamo disse isso, mas o problema é que é preciso que ambas as partes queiram, de facto, construir a paz. É preciso que existam alguns objectivos e só aí é que se cria condições para uma mediação – havendo o desejo de superar as dificuldades e diferenças.

Bom, a Renamo também diz isso porque quer dar passos e mostrar ao povo que está interessada na paz, mas quer o Governo quer a Renamo têm ainda muita desconfiança e muitos medos em relação a alguns aspectos. Isso leva a um diálogo de surdos ou mudos. Quero dizer, não há a vontade de cedência, de ir lá sem pré-condições. ‘Olha, vamos dialogar e o objectivo é construir a paz’.

Há ainda, por isso, que ultrapassar alguns constrangimentos de ambas as partes. Quanto mais o tempo passa e menos encontros ocorrem entre as partes a situação fica mais preocupante. E, entretanto, no terreno, é a população que sofre as consequências.

Neste quadro, seria importante que o Presidente português se referisse à necessidade da paz?

Penso que sim. Quantos mais apelos, mais vozes se juntem a este apelo, penso que mais se mexerá com as consciências daqueles que podem ter gestos concretos que nos levem aos caminhos concretos da construção da paz. Penso que ajudaria, de facto.

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