Uma vez mais o Mozreal transcreve mais um texto pela sua importância na (re) descoberta de alguns pontos nebulosos da nossa história comum. Com a devida autorização, foi extraído do blog (Aqui) do historiador moçambicano Eusébio A.P.Gwembe, blog que recomendamos vivamente.

JOANA SIMEÃO2

Joana Francisca Fonseca Simão, também conhecida por Ivette Tshilenge, ou simplesmente Joana Simeão nasceu em Nampula, aos 4 de Novembro de 1937. Era filha de José Luís Simeão e de Leopoldina Rebelo Fonseca Simeão. O pai fora motorista dos Bispos D. Teófilo José Pereira de Andrade e D. Manuel de Medeiros Guerreiro. (Abordarei a vida da Joana numa ocasião próxima). Em 1952, em companhia de sua irmã, Ana Simeão, foi enviada para Portugal. Em 1971 regressa, em definitivo, para Moçambique.

Antes de Joana Simeão seguir para Lourenço Marques, teve que passar pelos interrogatórios, em vários momentos, enquanto residia em Dondo, na casa do engenheiro Jorge Jardim. Um grupo de peritos em segurança e actividades subversivas foi constituído para recolher dados sobre a vida da Joana, analisa-los e sugerir o que devia ser feito e se ela era aproveitável para a propaganda colonial «por aqueles que se entregam». O relatório final foi negativo e sugeria que melhor era fazer de tudo para que a Joana fosse a Paris, ao encontro do marido. Num seu relatório de mais de 30 páginas, um agente confessa que «Lia-se-lhe nos olhos, nos gestos, na voz, nas hesitações e silêncios das respostas e no veneno de certas observações: era uma verdadeira leoa com as garras de fora, que nem sempre respeitava o chicote do domador. Odiava a miséria. Estas anomalias sociais (pobreza e miséria) deram-lhe volta ao miolo, fizeram-na regressar às recordações de Nampula e do Colégio de Santa Cruz e destrambelhou-se: na noite de 26 de Abril, após um festival de para-quedistas civis na pista da Lusalite, Ivette levanta-se a desonras e escreve as seguintes frases a carvão, nas paredes da residência: FRELIMO VENCERÁ. CONTRIBUAM PARA VITÓRIA. LIBERTAÇÃO MOÇAMBIQUE. VIVA FRELIMO. A BAS OS OPRESSORES. VIVA MOÇAMBIQUE INDEPENDENTE. FRELIMO, FRELIMO». Ivette é, mas é um osso muito duro de roer! Está longe a sua recuperação política – se é que disso se pode falar» e recomenda «assim, em qualquer actividade profissional e qualquer ponto do território da Província, Ivette, tal como o seu espírito se encontra hoje, será sempre uma testa de ponte IN na nossa retaguarda, tornando-se difícil ou até impossível destrinçar amanhã quando é que está a trabalhar dentro da Lei ou à margem dela».

Aqui vão algumas das partes de uma síntese das suas entrevistas

Interlocutor – Amanhã, quando sair daqui (na casa de Jorge Jardim) e se integrar na sociedade,a história da sua vida vem ao de cima e o público vai saber quem é e por onde andou. Tem pois de tomar uma posição e de mostrar uma faceta política: os seus futuros amigos vão exigir que se pronuncie como pensa reagir?

Joana Simeão – «Bien Sure, a minha posição será a única posição que devo tomar: a de um realismo político absoluto. Esses que se entregam e vêm depois para os Jornais com declarações demagógicas repudiando o passado, estão cometendo uma farsa. Veja o caso daquele que se entregou há dias, o Rachide «… contei tudoo que sabia, arrependi-me do que fiz e hoje sou um homem livre. Estou contente e jáposso viver junto da minha família».. isto é uma farsa. Como é que este homem se arrependeu em tão pouco tempo? Ele está porque se convenceu que é melhor para ele estar deste lado. Eu nunca faria uma confissão destas. Quem é que acreditava no meu arrependimento? Mas arrependimento de quê? Eu nunca fui militar. Sou política. E, como mulher política, quero ajudar a promoção dos moçambicanos. Simplesmente, em vez de trabalhar na ilegalidade, trabalharei na legalidade. Só porque vim para cá, não vou agora dizer amen a tudo o que o Governo quiser. Isso é bom para uma Doutora Custódia Lopes, que é um fantoche. O que é que ela já fez ou já disse na Assembleia Nacional a favor das populações que representa? É por isso que vou continuar a luta, procurando, até onde as autoridades me deixarem ir, ajudar os negros na sua promoção social e política. Esta é a vitória dos movimentos de libertação. A luta pelas armas é difícil, mas a luta no interior, na legalidade, procurando agir através das brechas que o Governo for abrindo e no terreno que nos for cedendo, é muito fácil. Este trabalho, o trabalho dos elementos do interior na legalidade má maior brilho e prestígio aos movimentos de libertação periféricos. Miguel Murupa é um fantoche. É um indivíduo intelectualmente medíocre e não tem a importância que lhe atribuem. De contrário, nunca se prestava àquela palhaçada das conferências de imprensa. Ele veio para cá porque não teve coragem para ficar lá. Não pense mal de mim. Veja que sou coerente. O meu idealismo político é positivo. Já atravessei a fase das fantasias e dos sonhos. Agora quero ser realista. Eu podia fazer um acto de contrição como os murupas, os kavandames, etc. mas não devo, porque isso seria forçar-me.

Interlocutor – Se realmente houvesse um jeito de independência por parte dos brancos, isso serviria os interesses da Frelimo?

Joana Simeão – «Não. Creio que não. Lá fora diz-se que não. Os dirigentes dizem que depois seria pior. O racismo seria mais acentuado. Só haveria vantagens se se formasse um Governo de coligação, com larga representação negra nos órgãos governativos. (…) O preto já não é mais o mesmo preto de 1964. E o branco também mudou.

Interlocutor – Quais foram os motivos que a conduziram à embaixada de Portugal em Paris?

Joana_simeao_1Joana Simeão: Cheguei a Paris, fui abordada pelo Dr. Campos, a quem Bahule escrevera. O Dr. Campos queria saber o que se passou em Lusaka com a carta e ameaçou-me de uma denúncia ao Governo Francês, fazendo chantagem, mais uma vez, com a minha falsa nacionalidade congolesa. Chegou mesmo a dizer-me que eu havia traído a luta de libertação e que, portanto, devia ser eliminad. Muito veladamente, mas bastante claro para eu perceber, disse-me que Embaixada da China Comunista em Paris gostaria de saber a minha atitude… Fiquei assustada, tanto mais que o meu marido também se atirara a mim: não tinha outra saída, era preciso safar-me dali. Depois de ter uma última disputa com o Serge e aproveitando a hora que estava fora, peguei nos miúdos, deixei tudo e fui para a Embaixada de Portugal onde pedi auxílio. Fui recebida por um funcionário, que disse que ia contactar Lisboa. Obtida a resposta, o Dr. Vilela acompanhou-me ao aeroporto e eu embarquei de avião com um salvo-conduto. Os franceses nem perceberam nada. Em Lisboa fui conduzida para um Hotel, necessariamente muito bem controlado pela polícia e fui ouvida na DGS, mas muito sumariamente devido ao meu estado de cansaço, esgotamento e confusão. A nove de Abril levaram-me ao aeroporto e embarquei nos TAP com os meus filhos para Beira.

«Nenhumas intenções sub-reptícias escondem a minha vida aqui. Vim para aqui porque Moçambique é a minha terra; sou moçambicana, devo lutar pela melhoria das classes menos favorecidas e isto abertamente e às claras. Quero morrer em Moçambique. Não sou uma adolescente política, mas sou consciente dos problemas que se desenvolvem no interior de Moçambique: a falta de representantes nativos para defenderem sem demagogias a solução de problemas imediatos, dos tais problemas de cuja solução depende a paz. Quero refazer a vida de solitária em condições normais e a minha reintegração deverá fazer-se em condições e tendo em conta o factor tempo. No futuro, quero trabalhar para ganhar a minha vida, educar os meus filhos e sustentar o meu velho pai.

Eu não posso continuar aqui. Aqui não é a minha casa. Quando vier o senhor engenheiro quero ver se me arranjam um emprego em qualquer lado. Eu gostava de me continuar a dedicar à acção social, especialmente entre as crianças e as mulheres. Quero ajudar as crianças e as mulheres africanas a encontrarem-se. Não pense que vou fazer subversão. Claro que não. Mas o que estiver errado tenho de lhes dizer que está errado. São o meu povo. Tenho de educá-los. Eu não vou fazer nada contra vocês, mas tenho de apontar os defeitos que encontrar e de proteger as mulheres e as crianças que me forem confiadas. É uma missão nobre, de que eu sempre gostei. Se fosse possível, gostava de ter um lugar de assistente social em qualquer lado.

Fonte: (Todo o relatório): PIDE/DGS, 2ª Divisão de Informação, Joana Simião, CI (2) 1225/73 folhas 187-227

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