Quénia culpa turismo gay por encontro sexual entre leões machos

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Os leos machos fotografados em Maasai Mara. Foto Daily Mail

A censura também vigia o comportamento dos animais que vivem em liberdade no território queniano. Ou pelo menos de dois leões machos flagrados no parque natural Masai Mara, no sul do país, pela câmara do fotógrafo especializado Paul Goldstein, na semana passada. Seu único pecado, aos olhos de Ezekiel Mutua – actual director executivo do Instituto de Classificação de Filmes do Quénia (KFCB, na sigla em inglês) – foi que um estava sobre o outro em posição de acasalamento num matagal isolado. “Seu comportamento é estranho e acho que a única explicação é que os animais viram casais homossexuais em comportamentos impróprios quando visitam o parque”, afirmou em declarações reproduzidas por um jornal na capital.

Mutua, que causou um alvoroço de indignação nas redes sociais, foi mais longe e afirmou que os leões também podem ser conduzidos por “forças demoníacas” porque os demônios “não possuem somente as pessoas”. Este funcionário é uma figura conhecida no Quénia por se posicionar contra a comunidade LGBT e por seu desejo de proibir qualquer filme que promova valores relacionados à homossexualidade. Tudo isso lhe valeu o qualificativo de “policial da moralidade”. Uma maneira de exercer o seu ofício que também extrapola no Twitter: “Os cientistas deveriam estudar esse comportamento. Como nas pessoas, o objectivo principal do sexo é a procriação”, escreveu no dia 2 de novembro.

Uma afirmação que está de acordo com a pretensão do organismo que dirige, amparado pelo Ministério do Desporto e da Cultura, de promover “os valores nacionais” e proteger os menores de “conteúdos perniciosos”. O último programa de televisão que não foi aprovado pela censura foi Andi Mack, do Disney Channel. A série, que acaba de estrear a segunda temporada, trata da identidade sexual de um dos personagens principais. “As crianças devem receber informações adequadas de que a família consiste na união entre pessoas de sexos opostos”, disse Mutua em outro tuíte, acrescentando que “nenhum programa infantil com conteúdo gay será transmitido no país”.

No entanto, Mutua deu um passo além para encontrar uma explicação para o “comportamento inusual” dos leões de Masai Mara. “Ambos precisariam de terapia, porque os animais não assistem a filmes”. Num momento da entrevista, o funcionário deixa a porta aberta para a possibilidade de que fossem dois mamíferos de sexos diferentes: “Gostaria de ter os seus registos para confirmar se realmente são dois leões machos”. Até 2010 foram registadas no mundo cerca de 500 espécies que mantinham algum tipo de actividade sexual entre membros do mesmo sexo.

Alguns usuários do Twitter não demoraram a mostrar rejeição às deduções feitas por Mutua. “Vá e isole-os você mesmo se for homem o suficiente”, escreveu um usuário depois que o oficial afirmou que esses animais “deveriam ser separados do resto”. Outros argumentaram sobre o seu trabalho como censor: “Você deveria proibir programas com roubos, violência e tiroteios, porque também são ilegais no Quénia”.

De acordo com a Amnistia Internacional, o Tribunal Superior de Mombasa confirmou em junho a legalidade de “praticar explorações anais” em homens suspeitos de ter relações entre eles. Uma sentença que viola o direito à privacidade conforme estipula o direito internacional. Actualmente, o Quénia é um dos 18 países africanos que infligem penas de até 14 anos para esse tipo de actos. Por enquanto, a censura não chegou ao mundo animal em liberdade.

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Emirates vai ligar os Emirados Árabes Unidos a Moçambique

A Emirates, companhia aérea global, com sede no Dubai, Emirados Árabes Unidos, poderá voar para Moçambique na base de um acordo de ligações firmado com a sua congénere LAM – Linhas Aéreas de Moçambique, anunciou nesta sexta-feira, dia 10 de novembro, o jornal ‘Notícias’ que se publica na cidade de Maputo.

José Bernardo Maneia, cônsul de Moçambique no Emirado do Dubai, explicou ao jornal que o acordo foi assinado há algum tempo, decorrendo agora discussões sobre as formas da sua operacionalização.

As ligações aéreas vão aproximar-nos gradativamente dos Emirados Árabes Unidos, conhecidas as suas potencialidades em vários sectores de desenvolvimento, disse José Maneia ao ‘Notícias’.

Responsáveis pela companhia aérea árabe têm defendido, em ocasiões anteriores, a necessidade de dar enfoque estratégico ao continente africano, apontando para um aumento nos destinos continentais, olhando para esta região como potência em mercados emergentes. E dentro dessa estratégia, Moçambique consta como um dos potenciais destinos da companhia.

De acordo com a fonte, a ligação aérea entre os Emirados Árabes Unidos e Moçambique insere-se num pacote de projetos em perspectiva entre as duas partes que inclui outras áreas como a mineração, agricultura, construção, serviços, turismo, entre outros.

O cônsul José Maneia refere nesta entrevista o interesse de diversas empresas de destaque em vários sectores da atividade em Moçambique, não só nas áreas das energias renováveis, mineração e infra-estruturas, com igualmente na produção agrícola, distribuição alimentar e até na construção de uma clínica hospitalar. Factores que, em sua opinião tornam além disso maior o interesse da Emirates e da LAM por uma nova linha aérea entre o Dubai e Maputo.

Presentemente, a Qatar Airways, companhia com sede no Emirado do Catar, igualmente no Golfo Pérsico, tem voos regulares entre Maputo e Doha.

Primeiro lote de autocarros chega a Moçambique para atacar crise de transportes

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Largo dos Caminhos de Ferro – Maputo

O presidente do Conselho Municipal de Maputo, David Simango, anunciou hoje a chegada de um primeiro lote de 80 autocarros de um total de 300 adquiridos pelo governo moçambicano para serviços de transportes públicos.

“A nossa expectativa é de que, nos próximos 15 dias, depois de todos os procedimentos administrativos, possamos colocar estes meios em utilização”, referiu.

Cerca de metade da frota total ficará na capital moçambicana, referiu.

O autarca falava no âmbito das celebrações do 130.º aniversário da elevação de Maputo a cidade.

Os autocarros visam minimizar a atual crise de transportes na capital do país, com falta de viaturas e onde é recorrente ver cidadãos a viajar em caixas de carga apinhadas de viaturas privadas de mercadorias – designadas “my love” pela forma como as pessoas se abraçam para não cair.

“Da mesma forma que os ‘my love’ apareceram, irão desaparecer com as medidas que estão em curso”, concluiu.

Fonte: Lusa

“O excesso de poesia pode matar um livro” – Mia Couto

O escritor Mia Couto esteve em Lisboa para apresentar o terceiro volume da Trilogia Moçambicana, dedicada à memória da ocupação portuguesa da colónia e Gungunhana.

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O fim da trilogia moçambicana As Areias do Imperador dá-se com o livro O Bebedor de Horizontes. A capa é ilustrada com a Praça do Comércio, em Lisboa, onde soldados escoltam o rei prisioneiro Gungunhana – Gungunhana – e algumas das suas trezentas esposas que foram autorizadas a acompanhar o imperador derrotado. Depois da apresentação em Maputo, onde esteve presente o presidente Nyusi, seguiu-se o lançamento em Portugal e daqui a dias no Brasil. Entretanto, Mia Couto assinou contrato para a tradução deste trio na China, versão que não pode controlar mas aprecia a iniciativa: “É como andar no mato e ter medo das cobras, só posso perguntar as credenciais ao tradutor e confiar.”

Este último volume tem um encarte fotográfico que mostra que os cenários da trilogia existiram e suportam a ficção. Ou seja, diz, “sigo em paralelo com a história para o leitor perceber que há uma margem de realidade”. Quanto ao título, resulta de uma experiência pessoal nos Açores, na Terceira: “Olhava o mar infinito que rodeia a ilha e pensei que em vez de dar um sentimento de imensidão acontece o inverso, está-se preso.”

Chega-se ao fim desta trilogia e foram contadas muitas histórias. O que ficou de fora da história?

Foi em muito um trabalho de seleção pois o que há de material escrito sobre este período por parte dos portugueses e memória moçambicana é muito. Não acredito que haja qualquer outra parte da história de Moçambique tão documentada, por isso o meu trabalho foi sobretudo de seleção de episódios, não pela importância histórica mas pelo valor de sugestão.

As fontes principais da trilogia são moçambicanas ou portuguesas?

Ambas. Em Moçambique, são os registos da oralidade. Falei com gente que viveu este período não diretamente, mas que tem a história viva na sua família, moçambicanos que descendem destes personagens. Da parte portuguesa, há um manancial de diferentes registos e até de uma narrativa que vai em contramão como um discurso da grande epopeia por via de personagens reais, como Álvaro Andrea que se rebela contra a intervenção de Mouzinho de Albuquerque por ser aventureira e desrespeitar códigos de honra militares.

Que é bem destacado no romance.

Isso quer dizer que não existia um único Portugal, o que hoje se compreende com mais facilidade.

Foi fácil encontrar “esse” Portugal?

Era um Portugal que estava profundamente dividido pela grande cisão entre monárquicos e republicanos e perspetivas diferentes dos militares. Até 1895 realizava-se uma intervenção hegemónica que era a da aceitação do estado de Gaza [de Gungunhana] e poucos portugueses se apercebem disso – bem como poucos moçambicanos -, por não ser um território homogéneo do ponto de vista da dominação política. Além das terras da Coroa, havia estados com autoridade própria e a relação era de convívio entre nações.

Essa dualidade em Moçambique existe em relação a Gungunhana?

O império de Gaza resulta de uma ocupação imperial de outros povos que conquistam o território a ferro e sangue, daí essas resistências que vemos através da narradora que conta esta história. Há dois colonialismos: um africano feito por africanos e contra africanos, que entrará em confronto com a colonização portuguesa devido a um jogo de interesses imperiais.

O Gungunhana que sai deste livro é o mesmo de quando o iniciou?

Mais ou menos. Quando chego a ele já se percebe que a figura histórica que sobreviveu é contraditória. Trata-se de alguém que tem grande astúcia diplomática, reconhecida por Portugal; afável e cruel; perspicaz na perceção da história e da sua condição face ao poder; sóbrio e ébrio, e um número incontável de mulheres – apesar de só ter tido uma verdadeira paixão, impossível.

Mesmo assim acaba usado como um troféu após a sua captura!

Sim, porque mais do que uma pessoa era um símbolo e era preciso mostrar este rei derrotado para Portugal obter a prova que precisava para mostrar ao resto da Europa que o território de Moçambique tinha as fronteiras proclamadas e evitar ser retalhado e redistribuído por outras potências coloniais.

Coloca numa personagem esta fala: “As pessoas adoram uma boa narrativa. Na guerra não se defrontam apenas exércitos.” Teve isto em conta enquanto escreveu?

Tive e estou animado pelos factos recentes das guerras que foram desencadeadas e que precisaram de uma narrativa em que não importavam quanta verdade existia nela. É o caso da do Iraque, legitimada por uma grande mentira, ou agora desta construção de um grande inimigo civilizacional que é o Islão e o alegado choque de civilizações. Não é verdade, apenas predispõe a combater um inimigo construído.

Cria imagens como a do soldado cego que olha para o lodo e vê a neve da sua terra. Para quê?

A intenção é mostrar que o grande drama é a saudade de outro lugar quando está a combater num que não é seu e tem de ficar cego de alguma maneira. Ensinam o soldado a apurar a sua pontaria, mas só consegue disparar quando já está cego e vítima de uma lavagem cerebral para ver no outro o demónio.

É preciso criar delírios?

Sim, mas tem uma condição particular que é a metáfora de todos os outros. Só assim se percebe que um soldado se disponha a entregar a sua vida longe da sua terra e de quem ama para defender uma causa que não faz sentido.

Essa causa foi a colonização, mas, após a independência, veio a guerra civil. Outra causa sem sentido?

O mecanismo é sempre o mesmo. Para que o homem possa agredir o outro ao ponto de o matar é preciso desumanizar e assim está-se autorizado a eliminar o não humano.

Alguma vez se arrependeu de algum dos seus livros?

Esqueço-me dos livros porque para fazer um novo tenho de os matar simbolicamente. Quando os releio – o que é muito raro porque na escrita reli-o mil vezes, tanto que me considero um reescritor em vez de um escritor – é só por absoluta necessidade. Por ir a uma escola falar deles e não querer ser apanhado em falso pelos alunos. A releitura gera-me uma sensação ambígua, a de como fui capaz de fazer isto e o reconhecimento de ter perdido alguma espontaneidade.

Diz que “uma carta é uma patetice disfarçada de poesia”. É uma reflexão sobre a sua própria escrita?

Às primeiras vezes sim, mas, como reescrevo umas vinte vezes, fui enxugando o texto. O excesso de poesia pode matar um livro, mas mais grave do que não escrever um livro é escrevê-lo demasiadamente.

Quando escreve “quem sabe se os pretos me fazem aqui uma estátua” não receia vir a arrepender-se da utilização dessa designação?

Não estava a escrever fora da realidade que é a própria vida. Há dias estive na Alemanha num encontro por causa de um livro meu, sobre o qual várias organizações questionaram a utilização da palavra niger, (negro) na tradução. Estavam tão assustados com o politicamente correto que tinham uma proposta: em vez de negro ou preto, utilizar a expressão “excessivamente pigmentado”. Ou seja, no livro um personagem do século XIX chamar “Ó excessivamente pigmentado, venha cá”. É errado não escrever sobre a verdade da vida ou estar a corrigir historicamente uma personagem que morreu há cem anos. Estamos a conviver com uma espécie de censura que está a ser imposta para resolver nas palavras o que deve ser tratado mais fundo.

Afinal, as questões do racismo não voltaram em força ao debate?

Sim e acho que é preciso pô-las em cima da mesa de uma maneira radical. Neste livro questiono esse lado cosmético e defendo que se deve ir mais fundo ao criar um mundo em que não seja mais um fator de discriminação. Há, no entanto, um equívoco no discurso de combate ao racismo, pois foi ocupado por uma visão puritanista que é mais a purificação da linguagem enquanto o problema é outro.

E em Moçambique mudou?

Não conheço país que tenha levado mais a fundo essa luta do que Moçambique, onde se saiu de uma situação colonial que fazia nascer o racismo e criou-se um país independente dirigido por uma maioria negra, tal como se fez uma revolução, nacionalizou-se a terra e os meios de produção que assentavam numa máquina que continuava a ser igual. Não esqueço que no princípio, Samora [Machel] falava “preto” e, de repente, percebeu que era preciso mudar e passou a dizer “negro”. Eu uso a palavra certa e não quero perder tempo na escolha, ou estarei a contornar a verdadeira questão. Dizer que Gungunhana é um negro é o mesmo que nada, não é por acaso que Morgan Freeman dizia: “Não sou um ator negro, sou o Morgan Freeman.” Só com o direito a ter individualidade é que acaba o racismo.

A trilogia desmistifica tanto a “epopeia colonial” como Gungunhana também. Os leitores de Moçambique aceitam isto?

Existe uma recordação muito diversa dele. Os povos que foram dominados e massacrados por ele não têm uma boa recordação; há outros que reconhecem ter sido um grande chefe, e até quem ache que tem um potencial para valorizar a resistência anticolonial. Ou seja, há vários Gungunhanas.

E Mouzinhos de Albuquerque?

Ele conhecia a situação colonial, tinha a coragem de um suicida e a inveja de quem morre na guerra. Mas o que fez com Gungunhana foi com a situação controlada e não um ato tão heroico como se pensa.

É também um livro de história?

Antes em diálogo com a história, porque o que se passou há 120 anos ainda tem situações que se colocam hoje a todos os níveis.

Qual a reação dos leitores ao livro?

Tem sido boa. O meu receio era que dissessem “isto não foi bem assim” ou que era uma agressão à verdade histórica. Não. Percebeu-se que é um romance e que foi bem na reconstrução da história.

Pode dizer-se que esta trilogia é a história dos vencidos?

É esse o meu pressuposto desde o início, pois está a ser contada por gente marginal e do lado vencido.

Por João Céu e Silva, in http://www.dn.pt

Nyusi leva governadora de Cabo Delgado para vice-ministra

O Presidente da República de Moçambique, Filipe Nyusi, exonerou esta sexta-feira Celmira Frederico do cargo de governadora da província de Cabo Delgado e nomeou-a vice-ministra da Terra, Ambiente e Desenvolvimento Rural.

O anúncio foi feito pela Presidência através de comunicado, sem adiantar mais explicações sobre a mudança.

O lugar que a nova vice-ministra vai ocupar estava vago desde a exoneração de Ana Coanai em dezembro de 2015.

Mocímboa da Praia, em Cabo Delgado, no extremo norte costeiro de Moçambique, foi alvo durante o mês de outubro de ataques armados contra a polícia por parte de dezenas de insurgentes, muitos ali residentes, de aparente inspiração radical islâmica, mas sem liderança conhecida.

O comunicado não adianta quem vai passar a dirigir o governo provincial.

Fonte: Lusa

Credores de Moçambique dizem estar “preparados para avançar com as negociações”

Banco de Mocambique

O representante legal do grupo que representa os detentores da dívida pública de Moçambique disse sexta-feira que os credores estão “preparados para avançar com as negociações” sobre os pagamentos em falta e resolver o ‘default’.

“Estamos preparados para avançar com Moçambique e os seus conselheiros na solução do Grupo Global de Detentores de Títulos de Dívida de Moçambique [GGMB, na sigla em inglês] que envolve a subordinação dos empréstimos legalmente suspeitos da Mozambique Asset Management (MAM) e da Proindicus, que estão sujeitos a garantias que foram consideradas ilegais e que devem ser rejeitadas pelo Governo”, disse Thomas Laryea.

Em declarações à agência de informação financeira Bloomberg, este advogado na firma britânica Cooke Robotham disse que o GGMB tem mantido discussões informais com os conselheiros e com o Governo, que terão “expressado vontade de continuar estas discussões”.

Existe “um alinhamento de visões”, acrescentou o representante dos detentores da dívida pública moçambicana, concluindo que “a situação avançou”.

As declarações de Laryea deixam antever que o Governo moçambicano terá aceitado dar prioridade, ou pelo menos separar, os credores em dois grupos: os que detêm títulos de dívida pública, e os investidores que, através do Credit Suisse e do VTB, emprestaram dinheiro às empresas públicas MAM e Proindicus.

A separação era um dos pontos exigidos pelos credores da dívida para aceitarem uma negociação dos pagamentos em falta, quase de certeza com uma redução dos valores (‘haircut’) e um alargamento dos prazos de pagamento.

Até agora, o Governo de Moçambique tem sempre manifestado a vontade de agregar todos os credores numa única plataforma.

O escândalo das dívidas ocultas surgiu em abril de 2016, com a divulgação pelo jornal norte-americano Wall Street Journal de empréstimos avalizados, mas não divulgados pelo Estado, no valor de 622 milhões de dólares à Proindicus e 535 milhões à MAM, atirando Moçambique para uma crise sem precedentes nas últimas décadas.

Os parceiros internacionais suspenderam apoios financeiros, a moeda desvalorizou a pique, as agências de notação financeira desceram o ‘rating’ e a inflação subiu até 25% em 2016, agravando a vida naquele que é um dos países mais pobres do mundo.

O reatamento das ajudas internacionais ficou dependente da realização de uma auditoria independente às dívidas, cujo sumário executivo foi distribuído em julho pela Procuradoria-Geral da República, e que tem sido alvo de críticas por parte de algumas das instituições envolvidas.

A atuação dos bancos está também a ser investigada pelo polícia federal (FBI) e Ministério da Justiça dos Estados Unidos, para além dos reguladores financeiros do Reino Unido e da Suíça.

Fonte: Lusa

“A vida foi boa e trouxe-me Nelson Mandela” – Josina Machel

Josina Machel, de 41 anos, é uma das mentoras da Associação Movimento Kuhluka, ONG que apoia mulheres vítimas de violência. A ativista, filha de Samora Machel com Graça Machel e enteada de Nelson Mandela, é sobrevivente desse crime.

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Josina Machel, de 41 anos, foi agredida pelo ex-namorado e, em consequência disso, perdeu a visão num olho | D.R.

Perdeu a visão de um olho. Neste ano o agressor, o ex-namorado, foi condenado. Em Moçambique, seis em cada dez mulheres são vítimas de violência doméstica. A Kuhluka é o pretexto para se falar de direitos das mulheres, transparência, eleições, dívida pública, sobre a sua infância e a família Machel.
Qual a pertinência de criar uma associação para apoiar mulheres vítimas de violência doméstica e abuso sexual?
A Kuhluka foi criada a partir de uma história pessoal cheia de dor e dificuldade. Pus-me no lugar dos milhões de mulheres que passam por isto e disse: não vou permitir, ou pelo menos vou tentar facilitar a vida das outras mulheres, que possam passar por violência [doméstica]. Então, para isso, precisamos criar uma associação, para criar uma plataforma de diálogo, de mobilização, que influencie políticas públicas, que envolva as instituições do Estado, que envolva individualidades, que envolva outras organizações sociais e mesmo académicas, para podermos sentar-nos e dizer qual é o problema de fundo disto. Que soluções podemos encontrar? Mas que sejam soluções locais, porque temos aspetos culturais diferentes. Depois, mobilizar a sociedade e consciencializar que violência doméstica é crime. Mas o ponto mais importante da Kuhluka é, exatamente, a criação, manutenção e apetrechamento de abrigos, para mulheres que são sobreviventes de violência. A ideia é termos um abrigo onde a mulher vai num momento de emergência e lá tem acesso a médicos, a um agente da polícia, para que não tenham de passar pelo que eu passei. Porque quando voltei umas semanas depois [da agressão], para começar o meu processo de [denúncia], os meus documentos tinham desaparecido. Acredito que não há muitas mulheres neste país que consigam fazer esse exercício. Então, para elas o abrigo facilita um sítio onde são atendidas, com pessoas que têm experiência, para reduzir o trauma e proporcionar o acesso a um sistema de aconselhamento, de como lidar com a dor, para aprender novos mecanismos de como se vai viver dali para a frente.

Como foi a situação que viveu?
Tínhamos saído e estávamos com alguns amigos. Tínhamos uma relação, mas não vivíamos juntos. Naquele dia em particular eu queria dormir em casa da minha mãe, porque era o aniversário dela. Estava emocionalmente abalada, não queria acreditar que a minha mãe já tinha 70 [anos]. E começa uma discussão, que para mim era conversa. Quando recebo um murro bem grande. Veio o segundo, bateu-me aqui nesta zona do olho, o olho fechou-se ali mesmo. Ficou preto. Começou a sangrar ali. Nunca mais vi na vida. Eu ainda estou ali a gritar quando recebo um outro [murro] aqui na nuca. Naquela altura, a única coisa que me veio à cabeça foi: “Sai do carro, tu vais morrer!” E saí. Por isso saí descalça, sem carteira, sem nada. Estava a fugir. Porque se não tivesse fugido aquilo teria continuado e não sei como teria acabado. Pus-me a gritar no meio da rua. Ninguém fez nada. Eventualmente, o senhor [que agrediu] achou depois que devia seguir-me com o carro. Nessa altura, acho que até me encontrou estatelada no chão, porque eu tinha começado a perder os sentidos por causa do embate na nuca. Levou-me ao hospital. Chego lá e começa outro processo, porque primeiro ele tentou convencer os médicos de que eu tinha caído. E eu disse: “Eu não caí, tu bateste-me!” E expliquei aos médicos o que tinha acontecido. Depois falei com a Polícia. Mas não tive grande assistência nas primeiras quatro horas. Pedi para ligarem à minha família, para saberem que estava ali, que precisava de ajuda. Ninguém me ajudou. Quando o quarto ficava um pouco mais calmo, fugia da cama para ir ao corredor e à primeira pessoa com que me deparasse pedi de joelhos: “Por amor de Deus, o meu nome é Josina, sou filha de Samora e Graça Machel, estou aqui neste hospital e ninguém me está a ajudar, por favor, será que de alguma maneira pode fazer a notícia chegar aos Machel?” Mas demorou três horas até chamarem os meus irmãos. Depois a minha família levou-me para clínicas especializadas aqui e na Europa e disseram-me que tinha uma ferida no olho. A córnea rebentou.

Decidiu depois denunciar tudo…
Quando voltei [da Europa] decidi que não ia fazer segredo do que aconteceu. Queria começar um caso em tribunal, porque achei que era daquelas coisas que, em vez de estarmos aqui como família a fazer justiça, decidimos embarcar pela via legal. E acabou sendo bastante feio, porque, enquanto eu e a minha família decidimos lutar pelo caso nos tribunais, o outro lado decidiu lutar pela opinião pública e com factos que são falsos, que foram até destruídos todos em tribunal. Mas foi criada uma certa perceção na sociedade de quem é a Josina, do que ela fez, do que ela não fez e que realmente não existia. Isso magoou-me muito, mas vai passando. E, pelo trabalho que eu vou fazer, penso que as pessoas vão começar a saber, exatamente, quais são as motivações da Josina. O que é que realmente aconteceu. E quem sabe consigo inspirar algumas mulheres, ajudá-las a tomar consciência.

Como sobreviveu a tudo isso?
Recusei vergar-me, OK? Acho que essa é que é a verdade. E tenho a sorte de estar rodeada por pessoas bem fortes. Tenho dois filhos e os meus filhos tornaram-se realmente grandes apoios. Tenho a minha mãe e os meus irmãos, que também se transformaram em grandes pilares e me ajudaram a manter-me erguida. Não significa que o processo foi fácil. Tive acesso também aos melhores médicos, tanto aqui como na Europa.

Estamos a um ano das eleições autárquicas e a dois anos das eleições gerais. Que expectativas tem para o país com estas eleições?
É minha expectativa que vamos conseguir escolher líderes capazes de dirigir este país, esta sociedade de uma maneira limpa, correta, firme, com uma grande postura de dignidade. Porque com pessoas assim, gente jovem, nós podemos realmente começar a “ressonhar” Moçambique. Agora eu gostaria, também, que houvesse uma certa clarificação sobre estes grandes escândalos económicos que nós tivemos. Por-quê? Porque isso está a ter um efeito muito grande nas pessoas. Esses números são números sobre os quais elas nunca imaginaram ouvir sequer, mas que estão a sentir na pele. O preço do tomate mudou, do pão, portanto afeta todos os moçambicanos. Então, eu gostaria de ouvir um esclarecimento que, realmente, satisfizesse primeiro os moçambicanos que querem saber o que aconteceu, mas que também pudesse satisfazer a comunidade internacional.

Maior transparência?
Muito maior transparência. Mas é preciso realmente resolver. O governo tem de fazer algo, tem de abrir o jogo. Agora estamos numa estagnação que é uma aflição. Há umas semanas tivemos o congresso da Frelimo e o presidente [Filipe] Nyusi foi reeleito. Então, tendo este grande suporte desta grande instituição, este grande partido, eu penso que agora ele tem espaço para fazer o que é necessário, porque depois disso a gente já tem conversas diferentes com os doadores, a comunidade internacional, as várias instituições financeiras que têm um grande impacto na vida política e económica do nosso país.

Há democracia em Moçambique?
Acho que sim. Bom, democracia, também podemos entrar em quê, naquelas grandes definições que são as três grandes instituições de governação, não é? Essas instituições estão ali, mas quais são as práticas diárias? São realmente democráticas ou não? Acho que temos aquilo que constitui a base do que é uma democracia. Agora se está a funcionar bem? Não tenho muita certeza. À medida que vamos crescendo como país e com a nossa identidade de moçambicanos, estas pequenas divergências entre partidos deixam de se tornar significativas, desde que todos possam contribuir para o desenvolvimento do país.

Cresceu numa família com grande força política e teve várias influências. Machel, Mandela. Em que medida essas influências contribuíram para formar a mulher que é hoje?
Definitivamente que tiveram grande impacto. Cresci e, a partir de uma certa idade, os meus pais nunca fizeram segredo do que eram as discussões que existiam no país. Cresci já num ambiente bem político. Infelizmente, o meu pai foi assassinado tinha eu 10 anos. Perdi muito. Gostaria de ter tido a oportunidade de conversar com ele, de beber muito mais dos conhecimentos de quem ele era, do grande homem que ele era. Mas a vida foi boa e trouxe-me, anos mais tarde, Nelson Mandela. E foi aí que aprendi o que é ser uma jovem com pai. Aprendi muito mais porque passei muito mais tempo com ele. Tivemos grandes diálogos. Ele deu-me grandes lições sobre o que é o ANC [Congresso Nacional Africano], como foi criado, em que bases. Tive o grande privilégio de, às vezes, viajar com ele para vários países e ver como era recebido. Mas sim, claro, tornou-me a mulher que sou. Samora sempre falou da emancipação da mulher. A minha mãe é uma das grandes mulheres que lutam pelos direitos das mulheres e é, por isso, que eu cresci sempre a saber que violência não.

Qual é a história que mais a marcou com Samora Machel?
Com o meu pai? O que me fica sempre é o facto de que, apesar de ser um homem muito ocupado e dedicado aos milhões de moçambicanos, nos tempos em que podia estar com os filhos fazia questão de que eles sentissem que ele estava ali por eles. Então, por exemplo, uma coisa que acontecia comigo é que, ao fim do dia, depois da ginástica dele, ele dizia: “Filha! Hoje foste fazer ballet, o que é que aprendeste?” Então eu ficava ali com os sete, oito anos a mostrar os movimentos. Essas coisas deram-me muito prazer. Gostava de brincar com a barba do meu pai. Então havia momentos que ficava ali, só a brincar com a barba dele. Ele foi realmente fantástico, tenho muitas, muitas saudade. Agora, olhando para os meus filhos, sabes, essas coisas da vida, ele teria tido muito gosto de ter estes netos que tem, todos eles. São miúdos realmente muito especiais. E que precisavam de beber um bocado dele e ele também, desta segunda geração que ele produziu.

Estamos na sua casa de família, recebe-nos com informalidade e generosidade. Quem é a Josina Machel?
Não gosto muito de formalismos. Acho-me uma mulher interessante, capaz de se sentar em várias mesas e conseguir fazer parte de muitas delas, através da educação, livros, assuntos sociais e políticos. Sou mãe, com orgulho, mãe galinha até. Mas sou esta mulher que, olha, celebra-se a si própria através da dança, de alguns momentos de silêncio e tenta comungar, sentir-se parte deste universo. Às vezes, quando estou bem arrasada, assim no chão, ya! Percebo – you know! – que isso faz parte da viagem e que hei de sorrir outra vez, dois, três dias mais tarde. Portanto, sou otimista. E agora sou uma mulher que sente a dor de vários milhões de mulheres e que, através da minha voz, tenta também dar voz a todas elas, ser a voz de muitas que não conseguem falar.

Por Vanessa Rodrigues, in http://www.dn.pt

Em Maputo

*com Tavares Cebola e A. Nhampossa
A jornalista viajou com a bolsa Aquele Outro Mundo Que É o Mundo (ACEP, Associação Coolpolitics, CEIS20, CEsA/ISEG, com o apoio da Fundação C. Gulbenkian).

Núncio apostólico em Moçambique acredita numa nova paz no país

Militares_desertoresO núncio apostólico em Moçambique, Edgar Pena, disse hoje que o país está em condições de entrar para uma nova paz, no âmbito do diálogo entre o Governo e a Renamo, o principal partido da oposição em Moçambique.

Em declarações aos jornalistas, à margem de um concerto alusivo ao 25º aniversário do Acordo Geral de Paz (AGP) em Moçambique, Edgar Pena afirmou que o Governo e a Resistência Nacional Moçambicana (Renamo) têm estado a debater temas centrais para o alcance de uma paz definitiva no país.

“Está a trabalhar-se em dois temas importantes, que são o fundamento de um possível acordo, que é descentralização do Estado e todos os temas militares”, frisou o embaixador do Vaticano em Moçambique.

O alcance de uma paz estável no país, prosseguiu, depende da mobilização de todos os setores da sociedade moçambicana, incluindo jovens e crianças

“Vemos os 25 anos de paz com esperança, é um caminho que temos feito, o país mostra que é possível superar as dificuldades”, acrescentou o núncio apostólico.

A 04 de outubro de 1992, o Governo da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) e a Renamo assinaram o AGP, que pôs termo a uma prolongada guerra civil.

O Governo da Frelimo e a Renamo estão novamente envolvidos em negociações para um novo acordo de paz, na sequência de surtos de violência militar que têm assolado o país nos últimos anos.

Fonte: Lusa

Moçambique deixa de emitir documento de identificação para estrangeiros com visto de trabalho

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O Serviço Nacional de Migração de Moçambique (SENAMI) informou hoje que deixou, desde 08 de setembro, de emitir o Documento de Identificação e Residência para Estrangeiros (DIRE) aos expatriados que entram no país com visto de trabalho.

Em conferência de imprensa semanal sobre as atividades do SENAMI, dominada por esclarecimentos sobre a medida, a porta-voz do organismo, Cira Fernandes, disse que os estrangeiros que já eram detentores de DIRE antes de outubro continuarão a utilizar este documento até à caducidade do seu visto de trabalho.

“Àquele cidadão estrangeiro que vem ao território nacional a trabalho será atribuído, a nível das representações diplomáticas e consulares, o visto de trabalho”, declarou Cira Fernandes.

A prorrogação do visto será feita anualmente em Moçambique, nas direções provinciais de migração, com base na validade do contrato de trabalho.

“Enquanto o contrato de trabalho estiver válido, será prorrogado o visto de trabalho”, enfatizou Cira Fernandes.

A porta-voz do SENAMI negou informações que davam conta de que a medida está relacionada com decisão do Governo de terminar o contrato com a empresa que vinha produzindo documentos de identificação em Moçambique, a firma belga SEMLEX.

“Não, não há nenhuma relação [com o fim do contrato com a SEMLEX), uma vez que este regulamento foi aprovado a 31 de dezembro de 2014, a mudança já estava plasmada em termos legais, é de lei”, frisou.

O SENAMI, prosseguiu, não está com problemas de emissão de DIRE, apenas mudou os requisitos exigidos para a concessão do documento.

Apesar de o decreto que introduz o fim da concessão de DIRE ter sido aprovado pelo Governo moçambicano em 2014, a decisão só entrou em vigor agora, porque havia procedimentos a cumprir, esclareceu Cira Fernandes.

A porta-voz do SENAMI assinalou que o DIRE continuará a ser emitido para cidadãos que tenham requisitos para um visto de residência em Moçambique e que não venham ao território nacional para trabalhar.

Cira Fernandes adiantou que os cônjuges, dependentes e outros parentes do titular de visto de trabalho continuarão a receber visto de permanência temporária, renovável nos mesmos moldes do visto de trabalho.

“Ambos [o visto de trabalho e o visto de permanência temporária] são de múltiplas entradas [em território nacional] e a permanência será renovável de acordo com a validade do contrato de trabalho”, explicou.

Fonte: Lusa

Portugal vai disponibilizar a Moçambique crédito vantajoso a partir de 2018

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Novas linhas de crédito com condições vantajosas vão estar disponíveis para projetos em Moçambique a partir de 2018, adiantou esta quinta-feira à Lusa a secretária de Estado dos Negócios Estrangeiros e Cooperação, Teresa Ribeiro.

As verbas estão a ser preparadas e “2018 será o ano em que estarão no terreno”, referiu a governante, antes de regressar a Lisboa, após uma visita de três dias a Maputo.

O crédito concecional representa cerca de metade do orçamento de 202,5 milhões de euros do Programa Estratégico de Cooperação assinado esta semana entre Portugal e Moçambique para o período 2017-2021.

“Os países não querem uma ajuda assistencialista, que não os tira da dependência”, referiu Teresa Ribeiro, que espera que as novas condições de crédito sirvam para “alavancar muito mais” iniciativas.

“Queremos usar esse dinheiro como semente, capaz de catalisar outros fundos”, acrescentou. O que importa “são os projetos” e os empresários que já se encontram em Moçambique e que “conhecem bem o mercado, estarão especialmente bem posicionados para beneficiarem de todos estes mecanismos”, referiu à Lusa.

O acesso ao programa em Moçambique, à semelhança do que se passa como outros, noutros países, vai ser aberto a todos os “projetos bancáveis” e dependente de “janelas que vão sendo abertas nas diferentes instituições multilaterais financeiras”.

Actualmente decorre o trabalho de redefinição da estrutura de funcionamento, herdada de fundos anteriores.

“Constatámos que eram mecanismos que não servem a realidade e que estavam paralisados por esse desajuste face às condições no terreno”, concluiu.

Fonte: Lusa