Ramaphosa, um ex-sindicalista convertido em bilionário no comando da África do Sul

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Cyril Ramaphosa toma posse.

Cyril Ramaphosa foi eleito na última quinta-feira, 16, como o novo presidente da África do Sul, em substituição a Jacob Zuma. Presidente do Congresso Nacional Africano (ANC, o hegemônico partido governante que chegou ao poder em 1994, com Nelson Mandela) e único postulante ao cargo, ele tomou posse numa sessão do Parlamento na Cidade do Cabo.

Ramaphosa, que assumiu em dezembro a liderança do ANC, procurava agora a saída do seu ex-aliado Zuma, salpicado por vários casos de corrupção, a fim de evitar uma catástrofe eleitoral nas eleições gerais de 2019. O novo mandatário, um ex-sindicalista que tornou-se milionário, prometeu reactivar a economia do país, há bastante tempo estancada, e erradicar a corrupção que assola o seu partido e a cúpula do Estado.

A mudança na presidência do país ocorre depois de Zuma ceder às pressões do ANC e anunciar a sua renúncia, fragilizado por um escândalo de desvio de recursos públicos. Apesar de discordar da decisão do seu partido – que o havia convidado a entregar a presidência do país –, Zuma renunciou definitivamente na quarta-feira por volta de meia-noite. “Cheguei à decisão de renunciar à presidência da República com efeito imediato”, disse ele num discurso transmitido ao vivo pela televisão.

Após semanas de tensões, o ANC, que governa a África do Sul desde o final do apartheid, em 1994, acolheu a renúncia de Zuma com alívio. “Não vamos comemorar”, declarou o dirigente partidário Jessie Duarte na quarta-feira. “Tivemos que ‘retirar’ um líder que serviu o nosso movimento durante mais de 60 anos, não é algo fácil.”

De sindicalista a empreendedor milionário

Ramaphosa, nascido há 65 anos no Soweto, foi militante estudantil nos anos setenta e, após formar-se em direito, dedicou-se totalmente ao sindicalismo, fundando em 1982 o Sindicato Nacional de Mineiros (NUM). À frente dessa organização, lutou contra o regime racista do apartheid. A sua trajectória foi abalada pelo massacre policial que matou 34 mineiros, em 2012, na mina de Marikana. Na época, Ramaphosa ocupava o cargo de director não executivo na Lonmin, multinacional dona da mina. Pouco antes do episódio – o pior envolvendo a polícia desde o fim do regime racista – Ramaphosa havia pediu repressão aos grevistas.

Já na década de 1990, Nelson Mandela fez do jovem sindicalista uma das figuras convocadas a negociar a transição política com o poder branco, por considerá-lo “um dos mais talentosos da nova geração”. Candidatou-se a liderar o ANC após a aposentadoria de Mandela, mas os caciques do partido o preteriram e optaram finalmente por Thabo Mbeki.

Quase um quarto de século depois, Ramaphosa chega ao poder depois de se tornar, nesse meio tempo, um bem-sucedido empresário que conseguiu acumular uma razoável fortuna – e não faltam insinuações de que seu império, que inclui negócios da mídia e até a franquia sul-africana do McDonalds, foram alcançadas graças a sua influência política. Neste longo trajecto até a presidência, a imagem moderada e o seu passado de herói na luta contra o apartheid ajudaram esse hábil negociador a concretizar a maior ambição da sua vida: governar a África do Sul.

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Quincy Jones diz que saiu com Ivanka, a filha de Doland Trump

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O produtor e músico Quincy Jones.

Quincy Jones, o lendário produtor musical por trás de grandes sucessos de Michael Jackson, concedeu uma disparatada entrevista à publicação norte-americana Vulture na qual afirmou saber quem realmente matou o presidente John Kennedy, acusou o falecido Rei do Pop de plagiar alguns dos seus hits e revelou ter saído há 12 anos com Ivanka Trump, quase 50 anos mais jovem que ele.

“Eu saí com a Ivanka, sabe?”, disse o produtor de 85 anos sobre o atual presidente norte-americano, Donald Trump, pai dela. Segundo Jones, a suposta relação ocorreu depois que o estilista Tommy Hilfiger lhe contou que Ivanka queria jantar com ele. “Tinha as pernas mais bonitas que já vi na vida. Mas o pai errado”, disse o empresário musical, que qualificou o bilionário presidente como “megalomaníaco”, “narcisista” e “mentalmente limitado”.

Ganhador de 28 prémios Grammy, Jones foi o responsável pela produção do disco mais vendido da história, Thriller, de Michael Jackson. Entre outras curiosidades, o produtor contou que Jackson “roubou” muitas partes das suas canções, que teriam sido compostas originalmente por outros artistas. “Odeio entrar nisto publicamente, mas Michael roubou muitas coisas. Roubou muitas canções”, insistiu.

“As notas não mentem, amigo. Ele foi o mais maquiavélico possível.” Jones citou especificamente Billie Jean, uma canção assinada por Jones. O produtor sugeriu semelhanças entre ela e State of Independence, de Donna Sommer, que também foi produzida por ele e lançada vários meses antes, em 1982. Poucos ouvintes associam imediatamente as duas faixas, embora ambas tenham linhas de baixo excepcionalmente longas em sintetizador. Jones também disse que Jackson era um “guloso” e que deveria ter dado um crédito parcial da letra de Don’t Stop ’Til You Get Enough ao tecladista Greg Phillinganes.

Conhecido por ter trabalhado com muitos dos artistas mais populares do século XX, Jones fala na entrevista sobre a sua experiência em gravar com os Beatles. “Eram os piores músicos do mundo”, diz. “Paul (McCartney) era o pior baixista que já houve. E Ringo (Starr)? Nem falemos disso.”

Sobre o Marlon Brando, Jones disse que o actor manteria relações sexuais “com qualquer coisa”, “se atiraria até numa caixa de correio” — e então enumerou uma suposta lista de amantes em que incluía James Baldwin, Richard Prior e Marvin Gaye.

Brasil: Lula fica mais perto da prisão e mais longe da eleição

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– O ex-presidente Lula, condenado pelo TRF-4 em segunda instância/ Foto FERNANDO BIZERRA JR EFE

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, principal nome da esquerda brasileira em quase quatro décadas, foi condenado nesta quarta-feira em segunda instância, complicando as suas chances de concorrer à Presidência em outubro. Os três desembargadores do Tribunal Regional Federal 4 (TRF-4) concordaram com a condenação dada por Sérgio Moro em julho, em primeira instância, e aumentaram a pena do ex-presidente, inicialmente fixada em nove anos e seis meses, para 12 anos e um mês. Apesar de ser condenado em regime fechado, o ex-presidente só poderá ser preso depois de julgados os recursos nesta instância.

Lula foi condenado pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro por ter recebido como propina da construtora OAS um apartamento Tipo 3 no Guarujá e reformas neste imóvel, num valor total de  2,4 milhões de reais, vindos de uma conta corrente mantida pela construtora para o Partido dos Trabalhadores (PT), alimentado por dinheiro desviado de contratos da Petrobras. Foi, sem dúvida, o julgamento mais controverso e o que mais debate jurídico provocou no meio político na breve história da Operação Lava Jato. Desde 2014, a operação abala a elite da política brasileira, mas com danos maiores e mais consideráveis para o PT. Também denunciado na operação, o presidente Michel Temer conseguiu barrar duas vezes investigações com vitórias em votações na Cámara dos Deputados.

O ex-presidente escolheu um local simbólico para acompanhar o julgamento: a sede do Sindicato dos Metalúrgicos, em São Bernardo do Campo, local em que nasceu como político ao ganhar protagonismo nas greves do final da década de 1970. Logo no início do julgamento, enquanto os desembargadores iniciavam a leitura dos seus votos, ele realizava um pequeno acto. “Estou extremamente tranquilo e com a consciência de que não cometi nenhum crime. A única coisa certa que pode acontecer é eles dizerem que o Moro errou”, ressaltou ele, de acordo com a sua conta no Twitter. O seu advogado, Cristiano Zanin, que falou no TRF4 antes do início da leitura dos votos, argumentou que a sentença de Moro falhou ao não provar quais as benesses que o ex-presidente teria recebido em troca do apartamento. E, ainda, que o imóvel pertencia de facto a Lula, já que a propriedade do imóvel estava em nome da OAS.

Mas logo no primeiro voto, o do relator Gebran Neto, já ficava claro que a condenação se desenhava. Para o desembargador, o facto do apartamento nunca ter sido transferido para o nome de Lula não é fundamental para comprovar o crime de lavagem de dinheiro. “É como se o apartado tivesse sido colocado em nome de um laranja”, ressaltou ele, que complementou que a OAS era a laranja do verdadeiro dono do tríplex, que era Lula. Para o relator, a transferência de titularidade não foi feita como “resultado da ocultação”. Ele também considerou que ficou comprovado que Lula praticava interferência directa na nomeação de dirigentes da Petrobras e que, por isso, teria o poder de beneficiar a OAS em contratos com a petroleira.

Gebran Neto demorou mais de três horas na leitura do seu voto, com quase 430 páginas. Ao final, decidiu ampliar a pena dada ao ex-presidente. Justificou que ela deve responder à “magnitude da culpabilidade” que, neste caso, era “extremamente elevada”. “Não está em jogo só o patrimônio da Petrobras, mas o Estado Democrático de Direito”, justificou o relator, que afirmou que o dinheiro da corrupção foi usado para eleger candidatos, impactando nos resultados eleitorais, e que isso faz que se questione o sentido da democracia.

O segundo desembargador a votar, também numa leitura longa que chegou a 1h30, foi o desembargador Leandro Paulsen, que concordou com o relator. Ele ressaltou que Lula agia directamente em relação às indicações de directores da Petrobras. E eram estes directores que acertavam as propinas com o ex-tesoureiro petista, João Vaccari Neto. “Ao manter [os directores] nos cargos o réu concorreu por acção e omissão para a prática criminosa.” Também afirmou que os principais executivos da OAS cuidavam do triplex e que foram feitas grandes reformas, vistoriadas pessoalmente por directores “só porque se tratava do imóvel do ex-presidente”. “É de se perguntar se alguém que não é titular de um determinado imóvel, ou que assim se sinta, aprova um projecto de uma cozinha de 150.000 reais e manda instalar sem perguntar o preço”, destacou ele.

Lula continua candidato, diz o PT

O terceiro e último voto que selou o destino desta quarta-feira foi o do desembargador Victor Laus, que seguiu os colegas. “Lula deveria ter impedido esquemas de corrupção” e “em algum momento passou a tirar proveito da situação, e perdeu o rumo”, disse Laus, confirmando a reputação do tribunal de ser ainda mais rigorosa que Moro. O desembargador seguiu os votos anteriores e aumentou a pena de Lula. Agora, cabe à defesa do ex-presidente recorrer ao próprio TRF4 com os chamados “embargos de declaração”, que é um recurso que só serve para tirar dúvidas, mas não altera a pena. O recurso é julgado pela própria turma, ou seja, pelos mesmo três juízes que o condenaram. Quando essa etapa for terminada, considera-se que o julgamento de segunda instância foi encerrado e que o tribunal pode pedir para que o ex-presidente seja preso, a menos que a sua defesa consiga um habeas corpus preventivo. Os advogados do petista podem recorrer ainda da decisão completa no tribunais superiores (STJ e STF).

“Vamos recorrer, claro. Não vamos aceitar isto porque lutamos muito para resgatar da ditadura militar a democracia que nós temos hoje”, afirmou numa conferência de imprensa o advogado de Lula, José Roberto Batochio. “O que estamos a ver agora é que o autoritarismo não veste mais aquela cor verde oliva [dos uniformes militares]. Sofreu uma mutação cromática e hoje está a vestir-se de preto. Condenação sem prova é condenação autoritária”. Zanin, o outro advogado de Lula, complementa: “a defesa vai utilizar de todos os meios legalmente previstos para impugnar a decisão proferida hoje. Acreditamos que é este resultado que vai prevalecer e nenhuma medida restritiva vai ser aplicada”, destaca ele. O advogado diz que os próximos passos serão analisados após a publicação oficial da decisão do TRF4.

Seja como for, a primeira reacção do PT foi reafirmar Lula como nome do partido para a disputa eleitoral de 2018. A presidente do partido, Gleisi Hoffmann, disse em nota que o PT vai “confirmar a candidatura de Lula na convenção partidária e registá-la em 15 de agosto, seguindo rigorosamente o que assegura a Legislação eleitoral”. “Não vamos aceitar passivamente que a democracia e a vontade da maioria sejam mais uma vez desrespeitadas”, disse.

Para cumprir o seu desejo, o PT terá de lutar legalmente pela candidatura do ex-presidente. O obstáculo principal de Lula é uma lei que ele mesmo sancionou. Em 4 de junho, o então presidente assinou a Lei Ficha Limpa, que impede políticos condenados por órgão colegiado (mais de um juiz, como o TRF4) de disputar cargos públicos por oito anos, mesmo sem uma sentença definitiva (no Supremo Tribunal Federal, por exemplo).

A batalha de Lula nem sequer terminou na Lava Jato e começa no âmbito eleitoral.

Estados Unidos classificam Moçambique como um dos países mais seguros do mundo

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Jovem conduzindo uma bicicleta na principal artéria da Vila de Palma, norte de Moçambique/Foto: Edmundo Galiza Matos

O Departamento de Estado dos EUA reformulou o seu sistema de recomendações de segurança para viajantes e publicou este mês um ranking que atribui uma classificação de risco a todos os países, agrupados em quatro níveis de ameaça. Moçambique surge na lista como um destino seguro, classificado com o Nível 1 (o mais seguro numa escala de 1 a 4), que comporta apenas a adopção de “precauções normais”.

Além da nota acompanhada de uma cor específica — azul (Nível 1), amarelo (Nível 2), laranja (Nível 3) e vermelho (Nível 4) — são indicadas informações sobre a natureza da ameaça. Em alguns casos, a ocorrência de um conflito armado localizado parece pesar menos do que o risco de um atentado terrorista e não evita a atribuição do nível máximo de segurança. Na Arménia, por exemplo, um país que é, tal como Moçambique, considerado de Nível 1, os cidadãos norte-americanos são avisados para não viajarem, para a região disputada de Nagorno-Karabakh, onde decorre um conflito armado com as forças do Azerbaijão.

No lote dos países mais seguros, onde está Moçambique, estão também destinos como Angola, Cabo Verde, Portugal, Austrália, Áustria, Bulgária, Canadá, Japão, Camboja, Macau, Coreia do Sul e Vietname.

Espanha, pelo contrário, está classificada como um destino Nível 2 devido ao risco actualde ataques terroristas. “Os grupos terroristas continuam a organizar possíveis ataques em Espanha. Podem atacar com pouco ou nenhum aviso, e os seus alvos são pontos turísticos, mercados, centros comerciais, edifícios governamentais, hotéis, clubes, restaurantes, locais de culto, parques, locais desportivos, escolas, aeroportos e outros locais públicos”, lê-se na avaliação que acompanha a nota.

O mesmo alerta é repetido em relação a França, Itália, Alemanha, Bélgica e Reino Unido. Estes países, tal como Espanha, estão no Nível 2. Tal como países como o Brasil e o México, em relação aos quais se alerta para “áreas de alto risco de segurança” e para elevados níveis de criminalidade.

Na China, também classificada com Nível 2, o alerta para os viajantes norte-americanos refere-se à arbitrariedade da justiça nacional.

O Nível 3, que comporta uma sugestão para se “reconsiderar” a viagem, é atribuído a países como a Guiné-Bissau, Venezuela, Honduras, Turquia, Guatemala, Haiti, El Salvador, Cuba e Rússia.

Na lista de países mais perigosos, no Nível 4, com uma recomendação expressa para não visitar, está sem surpresas a Coreia do Norte. A ela juntam-se o Afeganistão, República Centro-Africana, Irão, Iraque, Líbia, Mali, Somália, Sudão do Sul, Síria e Iémen. Apesar da mensagem imperativa escrita a vermelho, o aviso de “Não viajar” não se traduz necessariamente numa proibição concreta para os cidadãos – à excepção da referida Coreia do Norte, destino para o qual os norte-americanos estão actualmente impedidos de viajar.

Para todas as classificações acima de Nível 1 é atribuída uma letra que indica o natureza de ameaça. C representa Crime, T significa Terrorismo, U indica Detenções de Civis, H para Riscos de Saúde, N para Desastres Naturais, e o E alerta para um evento temporário, como uma eleição, que pode, no momento, representar uma ameaça acrescida devido a potenciais confrontos.

Os Níveis 1 e 2 devem ser revistos, pelo menos, uma vez por ano, a não ser que circunstâncias especiais justifiquem a sua revisão antes do cumprimento desse prazo. Já os Níveis 3 e 4 devem ser revistos de seis em seis meses.

O Fogo e a Fúria

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Trump na Casa Branca/SAUL LOEB (AFP)

Como se fabrica um best-seller? Assim. A editora Henry Holt divulga um comunicado explicando que logo aparecerá o livro Fire and Fury (Fogo e Fúria) do jornalista Michael Wolff, que revela muitos segredos sobre Donald Trump na Casa Branca, e dá alguns exemplos particularmente escandalosos. De imediato o presidente Trump reage com a sua habitual virulência nos seus tuítes matutinos, e os seus advogados anunciam que recorrerão aos tribunais para evitar que esse libelo calunioso seja publicado. A editora antecipa a saída do livro para o dia seguinte. Eu estava em Miami e tratei de comprá-lo nesse mesmo dia. Impossível: em todas as livrarias da cidade esgotou-se em duas ou três horas. O dono da Books and Books, meu amigo Mitch, teve a bondade de me presentear o seu exemplar. A editora anunciou que a milionária segunda edição de Fire and Fury aparecerá em poucos dias. Deste modo, Trump e os seus advogados conseguiram que um livro sem mérito algum – um a mais entre dezenas publicados sobre o novo ocupante da Casa Branca – circule como pão quente por todo o mundo. E, de passagem, tornaram o seu autor milionário.

Fazia tempo que não lia algo tão triste e deprimente como a colecção de fofocas, revelações, intrigas, rancores, vilanias e estupidezes que o jornalista Michael Wolff reuniu no seu livro, depois de receber os depoimentos de umas trezentas pessoas vinculadas ao novo regime norte-americano. A se acreditar nele, a nova administração estaria composta de politiqueiros ignaros e intriguistas, que se juntam ou se tornam inimigos e se apunhalam numa luta frenética para ganhar posições ou defender as que já têm graças ao deus supremo, Donald Trump. Este é o pior de todos, claro, um personagem que pelo visto não leu um só livro na vida, nem sequer o que lhe escreveram para que o publicasse com o seu nome relatando os seus sucessos empresariais. A sua cultura provém exclusivamente da televisão; por isso, a primeira coisa que fez ao ocupar a Casa Branca foi exigir que colocassem três enormes telas de plasma no seu quarto, onde dorme sozinho, longe da bela Melania. A sua energia é inesgotável, e a sua dieta diária muito sóbria, feita de vários hambúrgueres com queijo e doze Coca-Colas diet. O seu asseio e o seu senso de organização deixam muito a desejar. Por exemplo: teve um ataque quando uma criada pegou uma camisa sua do chão, achando que estava suja. O presidente explicou-lhe que “se há uma camisa sua jogada no chão é porque ele quer que esteja no chão”. Revelações tão importantes como estas ocupam muitas das trezentas e vinte e duas páginas do livro.

Segundo Michael Wolff, ninguém, a começar pelo próprio Donald Trump, esperava que ele ganhasse a eleição de Hillary Clinton. A surpresa foi total e, consequentemente, a equipa de campanha não se havia preparado em absoluto para uma vitória. Daí o caos vertiginoso que a Casa Branca viveu com os seus novos ocupantes e do qual ainda não acabou de sair. Não só não havia um programa para levar à prática, tão pouco pessoas capazes de materializá-lo. As nomeações eram feitas às pressas, e o único critério para escolher as pessoas era o aval e o olfacto de Trump. As lutas intestinas paralisavam toda acção, já que a energia dos colaboradores se voltava mais para criar obstáculos ou destruir reais ou supostos adversários dentro do próprio grupo do que fazer frente aos problemas sociais, económicos e políticos do país. Isto tinha efeitos cataclísmicos na política internacional, em que os rompantes quotidianos do presidente ofendiam os aliados, violentavam tratados e, às vezes, tratavam com luvas de pelica e até elogios desmedidos os adversários tradicionais. Por exemplo: a Rússia de Putin, pela qual o mandatário parecia ter uma fraqueza quase tão grande como os seus preconceitos contra os mexicanos, haitianos, salvadorenhos e, em geral, todos os imigrantes procedentes desses “buracos de merda”. A ponto de o “mais famoso nazista norte-americano”, Richard Spencer, que se horrorizava por Jeb Bush se ter casado com uma mexicana, proclamar com entusiasmo que Trump é “um nacionalista e um racista, e o seu movimento é um movimento branco”.

Lendo O Fogo e a Fúria pareceria que a vida política dos Estados Unidos só atrai mediocridades irredimíveis, cegos ao idealismo e a toda intenção altruísta ou generosa, sem ideias nem princípios nem valores, ávidos por dinheiro e poder. Os bilionários desempenham um papel central nesta trama e, das sombras, mexem os pauzinhos que colocam em acção parlamentares, ministros, juízes e burocratas. O próprio Trump tem uma simpatia irresistível por eles, especialmente por Rupert Murdoch, embora neste caso não haja a menor reciprocidade. Pelo contrário, o magnata das comunicações nunca lhe ocultou o seu desdém.

Personagem central deste livro é Steve Bannon, o último chefe de campanha de Trump e, acreditava-se, o arquitecto da sua vitória. Também algo assim como “o teórico” do movimento. Católico praticante, oficial da Marinha por sete anos, colaborador e jornalista de publicações de extrema direita, como a Breitbart News, define-se como “um nacionalista populista”. Pensava mal, mas, pelo menos, nesta manada de iletrados, pensava. Dele viriam alguns dos cavalinhos de batalha de Trump: o muro para conter os mexicanos, pôr fim à ampliação da saúde pública que Obama conseguiu aprovar (o Obamacare), obrigar as fábricas expatriadas dos Estados Unidos a regressarem ao solo norte-americano, reduzir drasticamente a imigração, baixar os impostos das empresas e reconhecer Jerusalém como capital de Israel. Para sua desgraça, a revista Time colocou-o na capa e disse que ele era o presidente na sombra. Trump teve uma explosão de raiva descomunal e começou a marginalizá-lo, de modo que Bannon foi perdendo posições dentro do corpo dos escolhidos, ao mesmo tempo que a filha e o genro de Trump, Ivanka e Jared, as ganhavam, o iam debilitando e, no final, o despedaçaram. Expulso do paraíso o “ideólogo”, as ideias se eclipsaram na Administração e ao redor de Trump, e a política ficou reduzida ao exclusivo pragmatismo ou, em outras palavras, aos caprichosos e aos movimentos tácticos e retrácteis do presidente. Pobre país!

Embora eu acredite que a descrição feita por Michael Wolff seja exagerada e caricatural, e que ler seu livro é uma perda de tempo, infelizmente também há algo de tudo aquilo na presidência de Trump. É provável que jamais na sua história os Estados Unidos se tenham empobrecido política e intelectualmente tanto como durante esta Administração. Isso é grave para o país, mas é ainda mais para o Ocidente democrático e liberal, cujo líder e guia vai deixando de sê-lo mais a cada dia. Com as consequências previsíveis: China e Rússia ocupam as posições que os Estados Unidos abandonam, adquirindo uma influência política e económica crescente, e talvez imparável, em todo o Terceiro Mundo e em alguns países do Leste da Europa.

Mario Vargas Llosa, 2018, in El Pais/Brasil

mCel exonera 11 gestores para poupar custos

A empresa pública de telefonia móvel moçambicana mCel exonerou 11 gestores, rescindindo contratos de trabalho com alguns, incluindo das áreas técnica e financeira, visando a contenção de custos, noticia hoje a Agência de Informação de Moçambique (AIM).

Uma fonte da empresa confirmou à Lusa as mexidas nos postos de direção da mCel, adiantando que, para os lugares deixados vagos, foram apontados quadros mais novos da empresa, mas que terão regalias abaixo das que eram oferecidas aos exonerados.

As exonerações atingiram ainda gestores das áreas comercial, logística, aquisições, contabilidade, transporte e património, bem como planeamento e engenharia de rede.

As mexidas inserem-se no quadro do processo de fusão entre a mCel e a operadora pública de telefonia fixa Telecomunicações de Moçambique (TDM), decidida no ano passado pelo Conselho de Ministros de Moçambique, como forma de evitar o colapso das duas empresas e torná-las competitivas.

Fonte: Lusa

Jornalista angolana lança livro em Maputo

A jornalista Luísa dos Santos lança hoje, em Maputo, o seu primeiro livro intitulado “Juventude de hoje…porque age assim?!”. A apresentação da obra vai estar a cargo da poetiza moçambicana Énia Lipanga, do escritor Hosten Yassine e da empreendedora e activista Maria Natália João.

Nesta obra, a autora revela pensamentos e preocupações pessoais que chamam atenção para a degradação da pessoa humana, alertando muito especialmente aos jovens e para os males contemporâneos. No mesmo livro, Luísa dos Santos expõe experiências reais e pensamentos sobre como melhorar o comportamento dos jovens com vista a alcançar o sucesso.

Trata-se de um projecto de vida que visa apoiar as vítimas de alcoolismo, narcóticos e prostituição de modo a reintegrá-las na sociedade. Para tal, Luísa dos Santos tenciona angariar fundos com a venda deste livro de reflexão, que tem por base a ponderação e a meditação profunda sobre a actualidade.

O referido livro já foi lançado em Portugal, Brasil e Angola e agora vai ser apresentado em Moçambique, juntamente com o projecto social intitulado “A Juventude e o Consumo Excessivo de Bebidas Alcoólicas Porquê?”

O livro conta com o prefácio do escritor português Porfírio Pereira da Silva e posfácio do escritor moçambicano HostenYassine.

Citada pela Revista Ngoma, a autora do livro “Juventude de hoje… porque age assim?!”, considera que o consumo excessivo de bebidas alcoólicas é um dos grandes flagelos actuais da sociedade angolana, em particular da juventude.

A História de Gungunhana e o livro que fica aquém

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É certo que causa tão prosaica não condiz com o lugar: da exótica e misteriosa África Austral, esperávamos enigmas quase mágicos, campanhas aventurosas, lutas corpo-a-corpo ou prodígios cinéticos de antologia; no entanto, a grande proeza que convulsiona o século XIX Africano é a introdução do milho. Não será, obviamente, o único responsável pelo surgimento de impérios e guerras de toda a espécie; nem se pode subestimar o papel de alguns Homens prodigiosos ou dos sempre imprevisíveis desmandos da fortuna. O acontecimento, porém, tem peso suficiente para ganhar a precedência no protocolo histórico.

O bom sucesso do milho em terras Africanas fez crescer, mais forte e vigorosa, a população nativa; a facilidade de o plantar em terras úberes libertou muitos homens da ocupação agrícola diária; e o aparecimento de um chefe valeroso, capaz de tirar proveito da recente prosperidade (salvo seja, claro) criou em África um Império nunca visto.

Shaka, um guerreiro de contornos mitológicos, rejeitado pela tribo que levaria à glória – os Zulus, tribo até aí com pouca expressão — construiu em pouco tempo um império colossal. A transformação de um grupelho de pastores numa letal máquina guerreira só tem paralelo com a evolução do império romano; a fulgurante conquista e subjugação de povos aparentemente mais poderosos poderia rivalizar com a contemporânea empreitada napoleónica. Ali, embrenhado no desconhecido interior Africano, formava-se num ápice aquilo que viria a ser o centro de todas as preocupações da África Austral. Foi Shaka que, pela primeira vez, conseguiu que um povo daquelas zonas tivesse um exército permanente; foi Shaka que mudou a forma de guerrear dos Angunes, que os pôs a perseguir e a aniquilar os inimigos derrotados, ao invés do tradicional ataque e fuga próprio dos seus antepassados; foi Shaka o responsável por grandes migrações dos povos derrotados e foi a morte de Shaka, às mãos dos seus irmãos, que fixou a geografia humana oitocentista dos povos africanos.

Mais ninguém conseguiu domínio tão extenso como o de Shaka. É com o seu declínio, então, que começa o Mfecane, a fragmentação dos povos que Shaka tinha unido, e que deu origem aos conhecidos Matabeles, ao Lesoto ou ao Império de Gaza.

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Gungunhana e as suas mulheres, em Lisboa, em 1896

É de notar que a fragmentação do Império não implicou exactamente uma perda de influência do domínio Zulu. Os Angunes fixaram os seus países e Impérios, mas quase sempre com um pergaminho genealógico e um poderio que fazia deles uma espécie de aristocracia dominadora dos outros povos. O caso de Gaza é paradigmático: Manicusse, um general de Shaka, instalou o seu império numa zona em que já se tinham refugiado muitos dos reis Tongas, fugidos de Shaka, e exerceu sobre eles um domínio que, apesar de lhes permitir certa independência, obrigava ao pagamento de uma série de tributos e impostos.

Como é claro, nem sempre as relações entre os Reis Tongas e o Imperador de Gaza eram pacíficas; e se, com Manicusse, os problemas foram sendo recalcados pela brenha Africana – Portugal, com as fronteiras de Moçambique ainda por definir, chegou a mandar uma embaixada ao imperador de Gaza –, com o seu neto as coisas já foram um pouco diferentes.

Manicusse era avô de Gungunhana. Gungunhana, porém, herdou o império de uma guerra fratricida. Após a morte de Manicusse, Mawewe, o seu filho e sucessor, empenhou-se numa guerra contra os irmãos. Conseguiu matar todos menos um, Muzila, que após um exílio no Transval, reuniu um exército que depôs Mawewe. Este episódio foi particularmente importante porque Muzila, além do apoio da República Bóer do Orange, pediu a ajuda Portuguesa para combater Mawewe. Além de Portugal ter todo o interesse nesta aliança – Mawewe pretendia que também Lourenço Marques lhe pagasse um tributo – tinha uma contrapartida também benéfica: Muzila considerar-se-ia, como veio a acontecer após a vitória, súbdito de Portugal.

Ora, Muzila era pai de Gungunhana, e Gungunhana, decerto alarmado pelo exemplo familiar, não desejava ter concorrência possível para o seu trono. Daí que tenha apertado o controlo sobre os Tsongas, vivesse preocupado com os descendentes de Manicusse — que os havia nos reinos Tongas — que pudessem reclamar o seu trono, e não visse com tão bons olhos a vassalagem que o pai prestara ao rei de Portugal.

Acresce que, com as fronteiras ainda pouco definidas, Gaza estava suficientemente próxima de território inglês para que pudesse ser reclamada pela Rainha Vitória. Gungunhana, ciente disto mesmo, também se ia aproximando, ora de um lado ora de outro, em busca de vantagens.

Tudo isto se passava suficientemente perto e suficientemente longe das províncias europeias para que as guerras entre tribos fossem sendo toleradas e o controlo também um pouco relaxado. Portugal estava ciente, como Inglaterra, do jogo duplo do Leão de Gaza, mas podia tolerá-lo. Inhambane e Lourenço Marques, na costa, mantinham boas relações com os reinos tongas mais próximos; os reis pagavam o imposto de palhota à coroa portuguesa e a paz ia-se mantendo; do lado inglês, também não parecia vir problema; a coroa britânica já tinha problemas com os Bóeres, pelo que seria um absurdo estratégico, em nome de terras pouco exploradas, arranjar um inimigo em Gaza.

Acontece, porém, que pelo fim do século XIX, a presença Europeia em África era muito discutida. A quantidade de interesses em conflito, provada tanto pela conferência de Berlim como pelo Ultimato Inglês, trouxe um enorme problema a Portugal. A cedência no mapa cor-de-rosa dera a imagem de um Portugal fraco, provavelmente incapaz, até, de manter as suas colónias. Estas passaram, assim, a tornar-se um território apetecível sobretudo para os vizinhos mais poderosos. O posto de Lourenço Marques, alimentado por um importantíssimo caminho-de-ferro, chegou mesmo a ser fortemente cobiçado pelo ambicioso estratega inglês Cecil Rhodes, da British South Africa Company, para escoar as matérias do Transvaal.

Assim, ao mesmo tempo que, nominalmente, as relações entre Gaza e Portugal eram cada vez melhores – Portugal, como já referimos, chegou mesmo a ter embaixadas em Gaza – Gungunhana era aliciado para procurar libertar-se do jugo Português.

Rhodes chegou mesmo a dar mil espingardas a Gungunhana em troca da exploração mineral em Gaza; e embora este acordo tenha sido dissolvido por causa dos protestos portugueses junto à coroa inglesa (entretanto já se tinham definido as fronteiras, e Gaza era indiscutivelmente território português), é ilustrativo, quer do interesse estrangeiro no território, quer da disponibilidade de Gungunhana para apoiar diferentes potências europeias.

As revoltas em Lourenço Marques não podem, pois, surgir em pior altura para Portugal. A teia de tribos existentes na província de Lourenço Marques era bastante complicada. Basicamente, havia alguns régulos considerados terras da coroa – que pagavam a Portugal imposto de palhota e reconheciam a soberania portuguesa – e outros que reconheciam apenas a de Gungunhana. O que este caso tem de complicado – teoricamente Gungunhana também era vassalo do Rei de Portugal, embora os seus não o fossem de D. Carlos – ilustra o problema também em pontos mais pequenos. Mesmo entre os régulos vassalos de Gungunhana, havia alguns que eram seus rivais. Assim, por exemplo, entre os Magaias havia uma disputa pelo poder, com Mahazul e Maveja em contenda. Mahazul era um fiel de Gungunhana, pelo que, logicamente, na sua luta pelo regulado Magaia, Maveja iria pedir o apoio português, que assim ganhava mais um regulado fiel.

Foi isto mesmo que aconteceu e que provocou a ira de Mahazul. Mahazul aliou-se, assim, a Matibejana, régulo da tribo Zixaxa, e juntos comandaram uma revolta na província de Lourenço Marques. Num dia, mataram o pescador Carlos Lopes, filho do famoso Patrão Joaquim Lopes, comandante da falua de salvamento do Tejo; noutro, atacaram e exterminaram, junto ao caminho-de-ferro, uma povoação Matola; estes incidentes tiveram grande eco na imprensa Sul-Africana e, como é óbvio, fragilizavam muito a posição estratégica de Portugal: num tempo em que se discutia a legitimidade da posse de territórios africanos, Portugal demonstrava não dominar os seus; numa altura em que o caminho-de-ferro era cobiçado pelos ingleses, Portugal poderia precisar de ajuda externa para o proteger, o que decerto traria as piores contrapartidas; numa altura em que os Bóeres e os Matabeles já mostravam a sua destreza marcial contra exércitos muito mais poderosos, Portugal podia ver-se obrigado a combater contra um colossal Império, em campos quase desconhecidos.

Se além disto notarmos que, nas primeiras expedições punitivas, o Major Caldas Xavier não conseguira sequer avistar os seus adversários, conseguimos perceber como se adivinhava difícil a missão de António Enes, nomeado pela coroa para restabelecer a paz em Moçambique.

As campanhas de António Enes, descritas por ele no seu livro A Guerra de África de 1895, são do mais interessante e mais vivo que a nossa história militar já produziu. Desde a plêiade militar que reuniu, com Aires de Ornelas, Caldas Xavier ou Paiva Couceiro, à primeira vitória em Marraquene, numa luta em campo aberto que trouxe os Matolas e os Moambas definitivamente para o lado Português; dos treinos de Caçadores 3, formados por Nativos, aos planos de ataque pelos rios Inharrime e Limpopo, dos jogos de enganos em que Paiva Couceiro e Mouzinho conseguiram vitórias inesperadas, à decisão de, pacificados os Magaias e os Zixaxas, depôr Gungunhana, tudo é interessante, como se pode ver no livro evocativo de Caldas Xavier ou nas cartas de Aires de Ornelas.

É depois de Marraquene, aliás, que as campanhas passam a dizer directamente respeito a Gungunhana. Matibejana e Mahazul, depois da derrota, pedem protecção ao Leão de Gaza, que os aceita como vassalos. Portugal exige a Gungunhana a entrega dos dois chefes e, depois de umas negociações com tanto de duro como de louco, o conflito estala.

Enes decide então avançar contra a capital de Gaza através de três colunas, cada uma delas subindo um rio (Inharrime, Limpopo e Incomáti), para se encontrarem na capital. A coluna do Incomáti, chefiada por Freire de Andrade, encontra os exércitos de Matibejana e Mahazul em Magul e, numa vitória moralmente brilhante (275 homens batem cerca de seis mil), precipita a derrota de Gungunhana. Muitos dos seus vassalos, depois desta derrota, não se juntam ao Leão de Gaza, o que enfraquece seriamente o seu exército. Gungunhana decide fugir da sua capital – tomada então pelos portugueses com toda a facilidade – e refugia-se em Chaimite. Já numa tentativa desesperada de salvar o seu poder, toma uma decisão que ainda enfraquece mais a sua posição: decide entregar Matibejana, o que aliena por completo a confiança dos seus aliados.

Só esta situação permite perceber a insólita captura do Leão de Gaza. Ao que parece, já tão enfraquecido, Gungunhana decide render-se. Mouzinho de Albuquerque, porém, decide persegui-lo e capturá-lo, levando para isso uma irrisória quantidade de homens, muitos dos quais ainda o abandonaram à chegada a Chaimite. Ainda assim, Mouzinho decide entrar pela paliçada de Chaimite, sem que nenhum dos guardas de Gungunhana lhe ofereça resistência. Trezentos Homens, munidos de espingardas, à vista de trinta ou quarenta, mas imaginando muitos mais, fogem. É assim, abandonado o Imperador pela sua guarda, que acaba o outrora temível Império de Gaza.

Guerreiros rudes, guerreiros cruéis

É neste fim que começa o último livro de Mia Couto. Percebe-se a ideia: de facto, do império Zulu à temerosa empresa de Mouzinho, do melancólico Álvaro Andrea, comandante da corveta do Limpopo que denunciou Mouzinho, uma espécie de guerreiro arrependido, à complicada relação entre Rongas e Angunes, tudo é romanesco. Compreende-se, então, que a trilogia As Areias do Imperador gire em torno do Império de Gungunhana. Mia, porém, é aqui tanto nome do autor como a voz do leão de Gaza. Não apenas por se tratar de um Homem desolado, entregue à bebida, derrotado e sem alma, feito um vulgar trapo na sua travessia até Portugal. Mia, apenas, porque é este o apanágio das personagens tíbias deste romance de Mia Couto.

As personagens são logo reduzidas por um preconceito óbvio: Mia Couto escreve um romance centrado na guerra mas não vê interesse nela. Daí que todos os guerreiros que as fontes relatam como bravos ou timoratos sejam rudes, cruéis, agressivos ou absurdamente intolerantes.

É nisto, aliás, que consiste a afamada neutralidade que Mia Couto empenhou no romance: a neutralidade não se traduz numa complexidade psicológica, ou numa verdadeira consideração por todas as partes, mas sim na equiparação entre Gungunhana e Mouzinho. Ambos são prepotentes, abusadores e pouco mais do que vilões mal esboçados. Em Gungunhana ainda há uns laivos curiosos na esperança que mantém em ser recebido por D. Carlos, mas de resto o livro não ultrapassa a lengalenga costumeira. Abaixo dos chefes guerreiros, sobressaem os heróis, oprimidos mas independentes, sábios de tradição africana, com notável argúcia para prever acontecimentos no meio de feitiçaria e adivinhação tribal. Como nos maus romances históricos, Mia Couto dá a medida da inteligência das personagens pela capacidade que têm em prever acontecimentos históricos reais. Além desta evidente batota literária (o autor já sabe que acontecimentos tiveram lugar), não há característica nenhuma nas personagens que ultrapasse a caracterização escolar. Os gestos misteriosos das personagens são depois explicados em correspondência, para dispensar a subtileza do leitor; as ideias, além de vulgares, expressam-se no maniqueísmo mais gritante, em explosões de prepotência ou racismo completamente gratuitas, com frases de manual.

Mia Couto, além disso, optou neste romance por reformar as suas célebres invenções de palavras através da junção de ideias, nuns trocadilhos à Guimarães-Rosa de liceu. A tentação, porém, assalta-o várias vezes e Mia Couto resolve-a através de um mecanismo risível de grosseiro. As personagens frisam as palavras inventadas, através de alocuções inexplicáveis. “Pensei na palavra…”, “só lhe vinha à cabeça a ideia de…”, como quem tenta inserir de forma atabalhoada um tema de conversa.

Em certos aspectos, este livro lembra a Guerra do Fim do Mundo, de Vargas Llosa. A campanha de canudos, tratada através de histórias romanescas, em jogo constante com a fonte histórica, um Euclides da Cunha presente mesmo no romance; Mia coleia um amor inter-racial num fenómeno bélico imprevisível e evidentemente romanesco, joga a paródia literária com um António Enes ridículo de ufano e com um Álvaro Andrea pretensamente complexo, mas reduz aquele que podia ser um grande épico moçambicano a uma narrativa monótona de tão linear, que não aproveita nem a riqueza geográfica nem o insólito da busca por Gungunhana, nem a complexidade de um Império assente em fidelidades fragilíssimas, nem as histórias que urde em volta da guerra. Para pretexto narrativo, o amor entre Imani e Germano é demasiado intrusivo; para drama principal, falta-lhe nervo que aguente as tragédias em catadupa. Imani perde o marido, perde o filho, prostitui-se, e continua a narrar placidamente a vida de Gungunhana, como se fosse apenas uma testemunha desocupada do Napoleão moçambicano na Santa-Helena portuguesa.

Mia Couto não podia ter escolhido melhor tema para a sua trilogia; e pior do que não ter feito um bom romance é ter conseguido fazer de um bom tema um mau romance.

(*) – Por Carlos Maria Bobone, in observador.pt

CFM perde 36,8 ME com retirada da Vale da linha-férrea de Sena

Comboio_vale_nacala

Comboio da mineradora Vale

A empresa ferroviária estatal moçambicana CFM deverá perder 36,8 milhões de euros anuais com a saída da empresa mineira brasileira Vale da linha-férrea de Sena, centro de Moçambique, estima a companhia.

“Perdemos um grande fornecedor de mercadorias nesta ferrovia”, declarou Augusto Abudo, diretor-executivo dos Caminhos de Ferro de Moçambique (CFM) na região centro, citado hoje pela Rádio Moçambique.

“A nossa obrigação é fazer um esforço para recuperar outros clientes. As áreas operacionais e comerciais estão a trabalhar nesse sentido”, acrescentou.

A linha de Sena liga a cidade portuária da Beira, em Sofala, e a vila de Moatize, em Tete, onde desde 2011 funcionam minas de carvão da Vale.
A empresa anunciou em 2016 que ia deixar de usar a linha devido à insegurança e baixa capacidade do volume de escoamento, passando a usar “exclusivamente” a linha de Nacala, infraestrutura que construiu em consórcio.

A nova linha parte de Moatize e segue para norte, atravessando o Maláui e reentrando em Moçambique na província de Nissa, cruzando Nampula, em direção ao porto de Nacala.

“Agora usamos exclusivamente a linha de Nacala para o escoamento do carvão” anunciou Rogério Cendela, especialista técnico de carvão da Vale, durante uma visita às minas, em novembro.

Aquele responsável justificou a medida com os ataques a locomotivas durante o conflito entre a Renamo e as forças de defesa e segurança moçambicanas, atualmente sob um cessar-fogo iniciado em dezembro de 2016.

Por outro lado, a linha de Sena escoava em media seis milhões de toneladas por ano, contra as atuais 18 toneladas da linha de Nacala, onde as operações de carregamento de navios em águas profundas têm também menos custos.

A Vale opera com sete comboios em contínuo na nova linha, para escoar maiores quantidades de carvão e maximizar o investimento.

Fonte:Lusa

Banco Mundial admite que manipulou dados sobre o Chile contra o Governo de Bachelet

Michelle-Bachelet-Chile

Michelle Bachelet, no seu último discurso de prestação de contas públicas diante do Congresso

A edição do The Wall Street Journal (WSJ) do passado sábado, 13 de janeiro, causou um profundo impacto no mundo da política e da economia chilenas. O economia-chefe do Banco Mundial, Paul Romer, reconheceu ao jornal que o organismo financeiro, oficialmente subordinado às Nações Unidas, alterou o seu ranking de competitividade empresarial e prejudicou o Chile – e, mais especificamente, Michelle Bachelet. Trata-se do relatório Doing Business, em que a posição do Chile caiu constantemente durante o mandato da socialista (2006-2010), subiu no Governo de direita de Sebastián Piñera (2010-2014) e voltou a cair quando a médica assumiu um novo mandato (2014-2018). Nesses 12 anos, o Chile flutuou entre o posto 25 e o 57.

As variações teriam ocorrido “por motivações políticas”, segundo as palavras de Romer ao WSJ. “Quero pedir desculpas pessoalmente ao Chile e a qualquer outro país ao qual possamos ter transmitido uma impressão errada”, afirmou o economista.

A presidenta Bachelet, que termina o segundo mandato em março, reagiu imediatamente através do Twitter. “Muito preocupante o que ocorreu com o ranking de competitividade do Banco Mundial. Além do impacto negativo da posição do Chile, a alteração prejudica a credibilidade de uma instituição que deve contar com a confiança da comunidade internacional”, escreveu a socialista.

“Dada a gravidade do ocorrido, como Governo pediremos formalmente ao Banco Mundial uma completa investigação. Os rankings que as instituições internacionais administram devem ser confiáveis, já que têm impacto no investimento e no desenvolvimento dos países”, afirmou Bachelet, que integra o Sistema das Nações Unidas. Entre 2010 e 2013, ela liderou a ONU Mulheres em Nova Iorque e, a partir de junho, encabeçará o programa Aliança para a Saúde da Mãe, do Recém-Nascido e da Criança, da Organização Mundial da Saúde (OMS), no lugar de Graça Machel, viúva de Nelson Mandela. Além disso, soube-se há alguns meses que participará num novo organismo mediador de conflitos internacionais da ONU, ao qual foi convocada pelo secretário-geral da organização, António Guterres.

O economista-chefe do Banco Mundial disse que os índices de competitividade chilenos serão corrigidos e recalculados. Nos últimos quatro anos, por exemplo, a queda do Chile foi provocada, quase na sua totalidade, pela alteração da metodologia de análise, não por mudanças nas medidas permanentes do ambiente comercial do país. “Com base nas coisas que estávamos a medir antes, as condições comerciais não pioraram no Chile sob a administração de Bachelet”, completou Romer.

O ministro chileno da Economia, Jorge Rodríguez, declarou que a alteração do ranking “é de uma imoralidade poucas vezes vista”. “É um escândalo de grandes proporções, pois o que indica é que teria sido manipulado pelo economista encarregado da sua elaboração (Augusto López-Claros), para que fosse vista uma piora económica durante o Governo da presidenta Michelle Bachelet, com intenções basicamente políticas”.

Após a entrevista de Romer ao WSJ, o Banco Mundial anunciou em nota que realizará uma investigação para esclarecer os factos. “Em razão das preocupações e do nosso compromisso com a integridade e a transparência, realizaremos uma revisão externa dos indicadores correspondentes ao Chile no relatório Doing Business.” O organismo, porém, defendeu a imparcialidade da classificação nos seus 15 anos de existência, definindo-a como “uma ferramenta inestimável para os países que procuram melhorar o seu clima de negócios, acompanhando milhares de reformas”.

López-Claros, o especialista do Banco Mundial acusado de manipular os dados de competitividade do Chile, disse num e-mail à Bloomberg que as acusações de manipulação política “não têm nenhum fundamento” e que a mudança metodológica foi “totalmente justificada e transparente”.

O segundo Governo de Bachelet foi marcado por transformações estruturais e por um crescimento económico discreto, de 1,8% em média. Os seus críticos acusam a socialista de gerar instabilidade com reformas mal implementadas, como a tributária, e de deixar de lado o crescimento económico, uma das bandeiras com as quais Piñera foi eleito para o período 2018-2022.