Anadarko promete entregar 175 casas às comunidades de Afungi no início de 2019

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Ivo Lourenço, da empresa Anadarko em Palma.

A multinacional petrolífera norte-americana Anadarko compromete-se a entregar 175 casas no início do próximo ano às famílias abrangidas pelo processo de reassentamento na península de Afungi, distrito de Palma, na província de Cabo Delgado, no âmbito da implementação do projecto de gás natural liquefeito (LNG) na Bacia do Rovuma.

Trata-se da primeira fase do projecto de reassentamento da zona onde será instalada a unidade de processamento de gás natural liquefeito (LNG) na Bacia do Rovuma, em que um total de 161 casas serão para as comunidades e 14 para funcionários públicos, de um total de 550 habitações para reassentar todas as famílias abrangidas pelo projecto.

Em declarações à Rádio Moçambique, o gestor do projecto da Anadarko, Ivo Lourenço, disse que já foram transferidas 28 campas do local onde está a ser construida a vila onde ocorrerá o reassentamento.

“Iremos transferir mais campas. Estávamos cientes que não podíamos pôr máquinas com campas lá. Esse é um elemento muito importante. Tivemos que ter muito cuidado no processo de conversação com essas famílias e comunidades, procurando saber quais são os seus hábitos e costumes,” explicou.

Destacou ainda a boa relação entre a multinacional, que se dedica à prospecção e exploração de hidrocarbonetos na Bacia do Rovuma, e as comunidades locais.

“Conseguimos notar a sua satisfação quando vêem as suas futuras casas”, disse.

Habitacao_reassentamento_quitunda_palma

Uma das casas já prontas a habitar pelos reassentados – foto Edmundo Galiza Matos

O projecto da Anadarko, o primeiro onshore realizado em Moçambique, inclui a construção de dois módulos de produção com capacidade total de 12,88 milhões de toneladas por ano (MTPA) de gás natural para o desenvolvimento dos campos de Golfinho/Atum localizados exclusivamente na Área 1 Offshore.

A Anadarko Moçambique Área 1 Lda., uma subsidiária integral da Anadarko Petroleum Corporation, é a operadora da Área 1 Offshore, com uma participação de 26.5 por cento. O co-empreendimento inclui a ENH Rovuma Área Um, S.A. (15 por cento), Mitsui E&P Mozambique Area1 Ltd. (20 por cento), ONGC Videsh Ltd. (10 por cento), Beas Rovuma Energy Mozambique Limited (10 por cento), BPRL Ventures Mozambique B.V. (10 por cento) e PTTEP Mozambique Area 1 Limited (8.5 por cento).

Habitacao_reassentamento_quitunda_palma_1

Uma das casas já prontas a habitar pelos reassentados – foto Edmundo Galiza Matos

Anúncios

Tudo em marcha para gás do Norte de Moçambique fluir daqui a quatro anos – vice-ministro

Palma_populacao_reuniao_publica

População de Palma – a primeira beneficiada dos projectos de exploração do gás natural/Foto – Edmundo Galiza Matos

Todos os investimentos estão em marcha para que o Norte de Moçambique comece a produzir gás natural liquefeito dentro de cerca de quatro anos, disse em entrevista à Lusa o vice-ministro da Energia e Recursos Minerais, Augusto de Sousa.

O período está assinalado no calendário: “continuamos com 2022, finais de 2023, como previsão e está tudo a correr muito bem para que nessa altura tenhamos a plataforma a funcionar”, explicou.

A plataforma flutuante Coral Sul, a estacionar na Área 4 da bacia do Rovuma, pertencente a um consórcio liderado pela Eni e Exxon Mobil, vai ser a primeira infraestrutura a extrair gás natural de poços abertos no fundo do oceano Índico.

A decisão final de investimento foi anunciada em 2017 e a plataforma está a ser construída num estaleiro na Coreia do Sul.

Depois, para 2025, está previsto o arranque da exploração dos poços da Área 1, que fica mesmo ao lado, mas cuja zona industrial vai ficar em terra e está já a ser preparada na península de Afungi, Cabo Delgado, por um consórcio liderado pela Anadarko.

A decisão final de investimento (FID, na sigla inglesa) deste consórcio está prevista para “o primeiro semestre do próximo ano”, referiu Augusto de Sousa.

As obras que no terreno para receber o gás da Área 1 são sinal de que o investimento é irreversível.

Mesmo assim, o dia em que a FID for anunciada, vai ser uma data para festejar, sublinha o governante – aquela é uma das siglas que causa mais ansiedade na gíria do gás natural, dado o potencial de investimento que acarreta.

“É como um jogo de futebol: todos estamos certos que vamos ganhar, mas, quando marcamos um golo, damos um pulo de alegria e certamente vai ser [motivo de alegria] para todos nós, para o país de uma forma geral”, destacou Augusto de Sousa.

Nada afecta o cronograma para ver o gás fluir, nem uma onda de violência, que dura há um ano, em aldeias remotas da região onde decorrem os investimentos e que já provocou perto de 100 mortos entre civis e militares.

“Nada atrasou os trabalhos. Neste momento está tudo dentro do cronograma”, referiu o vice-ministro, para quem os ataques parecem ser uma situação que, para os investidores, “vai ser controlada com facilidade”.

“Com o gás, vamos dar um pulo qualitativo e os nossos inimigos estão sempre atentos (…), querem ir no sentido contrário, mas cabe-nos a nós ter capacidade de reagir”, acrescentou, sem especificar quem são os inimigos, considerando que “nas áreas de negócio, é sempre assim”.

A plataforma da Área 4 vai produzir 3,4 milhões de toneladas de gás liquefeito por ano, mas da fábrica da Área 1 vai sair o triplo, que além da exportação vai também alimentar projectos domésticos.

Augusto de Sousa entende que a utilização do gás para a produção de electricidade deve ser uma prioridade, porque “todas as outras indústrias precisam de energia”.

“Se conseguirmos a produção de energia a um preço barato, viabilizamos as outras indústrias que também que também precisam de energia”, sublinhou.

Além disso, o Plano Director de Desenvolvimento das Infraestruturas de Electricidade determina que mais de metade vai ser produzida a partir de gás natural dentro de 25 anos.

“Se nós conseguirmos um preço preferencial [junto das concessionárias de exploração de gás], isso vai ser uma mais-valia” para todo o país”, realça.

Já há um preço indicativo para o gás que Moçambique vai usar na Área 1 para produzir electricidade, mas ainda vai ser negociado, referiu.

Augusto de Sousa adiantou à Lusa que, até final do ano, o Ministério dos Recursos Minerais e Energia vai operacionalizar uma Unidade de Planeamento Energético porque há outros projectos ancorados na fatia de gás natural para uso doméstico.

Já está aprovada uma fábrica de fertilizantes da empresa norueguesa Yara, outra da anglo-holandesa Shell para produzir combustíveis e um terceiro projecto da GL Energy Africa, empresa britânica, que vai transformar gás em electricidade – e mais projectos podem estar na calha.

Representantes de várias entidades públicas cruzam-se “à porta do ministro, cada um com o seu projecto” baseado no gás natural, “mas tem de haver um ‘ranking’ sobre o que é prioritário para o pais”, a partir de uma avaliação por mérito dos projectos, que será feita por essa nova unidade, referiu.

“Cada sector puxa para o seu lado. Temos de ter capacidade de planificação”, sublinhou.

Augusto de Sousa vai mais longe e disse entender que a experiência de Moçambique, mostra que este trabalho de preparação de projectos deve ser feito antes das descobertas de gás e petróleo para dar maior poder negocial ao Estado.

Uma lição a aplicar agora, numa altura em que Moçambique acaba de assinar contratos para prospecção e exploração noutras cinco áreas, no mar e em terra, válidos por oito anos.

Fábrica de gás natural vai empregar cinco mil moçambicanos em Palma

Trabalhador_mondial_palma

Trabalhadores de uma empresa que opera em Palma

A construção da fábrica que vai processar o gás natural a extrair na bacia do Rovuma vai empregar cinco mil moçambicanos, anunciou a Anadarko, a petrolídera norte-americana que espera gastar cerca de 2,5 mil milhões de dólares nos cinco de construção.

A fábrica está a ser construída no distrito de Palma, na península de Afungi, província de Cabo Delgado, a cerca de 2.500 quilómetros da capital, Maputo, e junto à fronteira com a Tanzânia.

O consórcio liderado pela Anadarko está a realizar trabalhos de preparação do terreno e infraestruturas associadas à fábrica, aguardando-se a decisão final de investimento em 2019.

O projecto já contratou bens e serviços estimados em 850 milhões de dólares nos últimos cinco anos.

A Anadarko está ainda a desenvolver um programa de apoio à certificação de empresas moçambicanas em normas internacionais e a implementar um sistema de registo de fornecedores para a indústria de petróleo e gás em Moçambique e um código de práticas.

Palma: E do mato brota uma vila

Quitunda_aldeia_reassentamento

E do mato brota uma vila. E uma vida nova para centenas de famílias que sairão de uma aldeia de casas modestas para um espaço com melhores condições de habitabilidade – residências modernas, dotadas de mais espaço, melhor arejadas, iluminadas e com água canalizada, e um saneamento amigo do ambiente. Os serviços de saúde, e outros de interesse público, nomeadamente, administrativos, sociais e culturais, foram devidamente tidos em conta. Assim vai ser a futura vila de reassentamento, cujas obras estão a decorrer normalmente, como atestam as imagens registadas pela reportagem da Rádio Comunitária de Palma. Fica situada na zona de Quitunda, e para lá mudar-se-ão pouco mais de quinhentas e cinquenta famílias (550) por força de um entendimento entre a empresa Anadarko e a comunidade de Quitupo, local onde se prevê edificar uma das principais infra-estruturas de exploração pela empresa ANADARKO do gás natural da Bacia do Rovuma. As primeiras 175 casas serão entregues já nos princípios de 2019.

Quitunda_39

As imagens são eloquentes. Foram registadas no decorrer de uma visita às obras por funcionários do Governo do distrito de Palma, líderes comunitários e membros da sociedade civil. “É a quinta visita”, disse um funcionário da ANADARKO, durante as quais os parceiros da empresa não só se inteiram do andamento das obras, como propõe uma e outra alteração que acharem oportuna. Aliás, a concepção técnica deste moderno aglomerado comunitário contou sempre com as ideias dos principais interessados – os seus futuros habitantes. Aliás, jovens que para ali irão viver, estão eles próprios empregues nas obras de edificação da sua Vila.

Quitunda_aldeia_reassentamento1

Quitunda_aldeia_reassentamento_3

José Mucavele – Balada para uma amizade

Edmundo-Galiza-Matos_Jose-Mucavele

Conheci-o em 1981 em Nampula quando, com ele, integrado naquela que terá sido a primeira super-banda moçambicana apos a independencia, – o Grupo RM -, percorremos alguns distritos daquela provincia e a de Cabo Delgado. Desde então continuamos amigos, como não podia deixar de ser. E a propósito do Grupo RM, Luís Loforte, que comigo produzia o extinto Clube dos Entas, escreveu sobre o Zé.
«O projecto do Conjunto RM foi sem dúvida uma ideia interessante, principalmente por ter entretido pessoas e fixado canções até aí reduzidas à sua expressão meramente popular. Não querendo elaborar muito à volta dessa matéria, manda porém a verdade dizer que quem acompanhou como nós o percurso histórico deste agrupamento da nossa estação, sabe o quanto a sua estrutura orgânica limitava, e muito, os horizontes e a criatividade dos inquietos músicos, entre os quais se conta, sem dúvida, o José Mucavele. Era o problema da constelação de estrelas, mas também, e sobretudo, do burocratismo e da compensação nivelada por baixo, os quais, como sabemos hoje tão bem, não são bons parceiros da cultura. Aliás, como toda a tentativa de dirigir a cultura, ou de fazê-la por decretos.»

“Magunhungu” faz anos

FB_IMG_1541602410941

Por Luís Loforte

Costumo contar algo sempre que uma alma ligada intimamente a mim faz anos. E naturalmente quando o tempo me sobra. É sobre o Edmundo Galiza Matos, pois, que versará o post que lavro. Ele faz anos, hoje, 64. Nasceu, como eu e de ventre comum, em Inharrime, e curiosamente sendo a mesma parteira a assistir a nossa eclosão: Amélia (Madahu) Salomão.

Tivemos destinos opostos em finais de 1955, ele para Moamba, e eu para Matacalane, Inhambane. Pouco tempo depois, porém, a distância que nos separava haveria de diminuir quando ele vai viver para casa de nossos tios maternos, Samuel Simão Sengo/Rosa Mucambe, em Cambine. Mas só por algum tempo, pois um famoso professor que por lá leccionava, o Manuel Paixão (curiosamente pai de uma nossa amiga, a Telmina Pereira), mexeu alguns cordelinhos para que o “miúdo ruivo” não medrasse naquele ambiente agreste. E assim retornou o Edmundo à Moamba, mas não sem antes passar uma temporada em Matcalane, em casa dos avós maternos, onde também me encontrava. Dando um salto no tempo, e tudo para grafar a história que vos reservo, chego ao período em que juntos vivemos em Lourenço Marques, em casa do “Ti-Pedro”. Aí, as histórias são imensas, com destaque para esta:

A Moamba e o Sábiè eram o celeiro de praticamente tudo em LM. De lá chegava, da nossa mãe, o que se destinava ao consumo, e outra para a venda, em banca no Xiphamanine, mais concretamente no Guro, alí em frente ao Espada. A verdade é que éramos sempre os primeiros a esvaziar a banca de tomate, repolho, cebola, pepino. Os clientes tinham uma preferência especial pelos nossos produtos, não porque eles fossem melhores que os dos outros vendedores. Havia algo que os atraía, algo que se tornava imperioso capitalizar. Notei que as pessoas achavam curiosa a presença de um “xilungwana” (branquinho), ainda para mais de cabelo ruivo e traquina, entre as bancas. Então, decidi: “ficas sempre aí que tudo se vai esgotar rapidamente”. Se melhor pensei, melhor o fiz, pois resultou em cliente atrás de cliente: “a xilungwana lexi xa yitiva a male hé wena!” (este branquinho conhece bem o dinheiro, pá!). Mas o dinheiro era imediatamente recolhido, evitando assim o risco de ir cair nas mãos dos vendedores de “ti fiosse” e “ma djalibi”!

Edmundo foi um brilhante jornalista, um óptimo radialista, e hoje um alto bloguista, significando isto, portanto, que ele foi sempre cabeça de cartaz, em tudo, até no mercado do Guro, em Xiphamanine.

Na foto abaixo, mostrando, pacientemente ao meu neto André, de quem é muito amigo, os caminhos por si percorridos na infância distante, em Matacalane. Parabéns, “Magunhungo”!

FB_IMG_1541602394656

O Farol do Cabo Delgado

Texto e fotos: Edmundo Galiza Matos, em Palma

Mozreal_1

No sétimo dia do passado mês de Outubro, um domingo, aconteceu aquilo que há muito ansiáva, mas muitas vezes adiado por outros afazeres mais urgentes. A oportunidade apresentou-se, não a desperdicei. Eufóricos, fui visitar um dos marcos históricos mais espectaculares da província de Cabo Delgado; um símbolo moçambicano erguido pelas autoridades coloniais portuguesas, que muitos não conhecem, ou sequer ouviram falar. Logo nas primeiras horas da manhã daquele dia, peguei a estrada que liga a vila de Palma a Quionga, um troço de terra batida há muito a precisar de reparação. Dezena e meia de quilómetros percorridos, enveredei por um desvio que me levou até ao objecto do meu desejo – o famoso e enigmático Farol de quarenta e três metros de altura, erguido há 87 anos no chamado Cabo Delgado.

Mozreal_3

Foi uma penosa mas gratificante aventura: até ao lugar onde está implantada a imponente estrutura de cimento armado, fiz um troço de apenas cinco quilómetros, todo ele incrustado de pedregulhos pontiagudos, cinco quilómetros marginados por árvores, arbustos, capim alto e lianas entrelaçadas de forma desordenada. O cenário circundante denuncia o habitat característico da vida selvagem. A viagem durou quase uma hora. Ou seja, cinco quilómetros em quase sessenta minutos. Pessoas a circular por ali? Não vi uma única sequer. O jovem Jamaldine, o meu guia, confirmou o que já imaginava: estava a embrenhar-me nas terras do fim do mundo.

Mozreal_4

O faroleiro foi a primeira pessoa que avistei e com quem troquei as primeiras impressões. O homem, satisfeito por estar diante de alguém que de certo iria quebrar a monotonia do seu dia a dia, colocou-se de imediato à minha disposição, respondendo a todas as perguntas com entusiasmo. Com ele visitei o Farol de Cabo Delgado, entramos nas casas meio arruinadas outrora destinadas aos guardas do local e, quando me dei por satisfeitos, convidou-me a visitar uma comunidade de pescadores situada a menos de um quilómetro dali.

Mozreal_8Mozreal_7

O local – que alguns preferem chamar de acampamento e outros de aldeia – é habitado maioritariamente por pescadores, alguns deles com as respectivas famílias. Depois tem-se uma pequena legião de negociantes, ou seja, indivíduos que ali se encontram para comprar o peixe e outros produtos do mar, transportando-os depois para outros pontos de Moçambique e mesmo para a vizinha República Unida da Tanzania. Simuco é o nome da aldeia, assim se chama o acampamento. Sempre acompanhado pelo solícito faroleiro, e à sombra de alguns coqueiros de baixo porte, entabulei conversa com uma mão cheia de “notáveis” locais.

Mozreal_2

Mozreal_5

Juntos embrenhamo-nos pelas terras do fim do mundo – visitamos o famoso mas ao mesmo tempo desconhecido farol do Cabo Delgado, um marco histórico importante desta província do norte de Moçambique. Dos pescadores e negociantes de peixe que habitam o local registei narrativas sobre a realidade de uma região remota da província de Cabo Delgado, do meu país. É meu desejo que os leitores tenham enriquecido um pouco mais os seus conhecimentos sobre a vida de outros moçambicanos habitantes de zonas longiquas e de difícil acesso.

Mozreal_6

Quionga: Fauna Bravia

IMG_6580Para além destes pequenos símios, comuns em todo o país, abundam nesta região do distrito de Palma, gazelas (cabritos do mato) e coelhos. Predadores, como leões e leopardos, são avistados, mas muito raramente. Um camponês disse-me que sabe da existência de um casal de leões, que não “faz mal a ninguém porque tem muita gazela por aí”. Testemunhos dizem que “foram-se embora”. Para onde, não sabem dizer. Não há notícia da acção de caçadores furtivos nos últimos tempos. Provavelmente porque a população de paquidermes reduziu drasticamente, ou porque movimentou-se para as bandas de Negomano, no distrito de Mueda, fronteira com a Tanzania.

O dedo do Nyusi no gatilho contra a caça furtiva

FB_IMG_1541412286828

Há pouco mais de duas semanas, o famoso Mpinga, um caçador inveterado de elefantes que disparou contra fiscais da Coutada 12, em Sofala, apanhou 14 anos de prisão efectiva na Beira. Foi a primeira grande machadada dissuasória da caça furtiva em Moçambique. Pela primeira vez, um operacional de nomeada era condenado no quadro de uma nova vaga de reação penal contra o abate desmesurado de espécies protegidas. A condenação de Mpinga, amplamente celebrada no seio da classe local de conservacionistas, teve uma enorme dimensão simbólica pois tratou-se do indicador mais empírico de uma mudança de paradigma no sector da conservação em Moçambique. Durante muitos anos, o discurso oficial fez vista grossa à caça furtiva. Para alimentar esse olhar opaco foi institucionalizado um chavão pernicioso: a ideia de conflito homem-animal, no quadro do qual o abate de espécies protegidas foi generalizado. Os animais eram uns inimigos facínoras da existência humana. Eles tinham de ser abatidos!

As autoridades da administração local do Estado foram equipadas com armas de caça para fazerem a defesa das comunidades. E armas foram espalhadas pelo país de forma imensurável. A caça furtiva recrudesceu. A ganância aumentou. Rinocerontes dizimados. Quando o governo de Filipe Nyusi tomou posse, em 2015, o Ministro Celso Correia (do MITADER) começou a ouvir, sem preconceitos, as preocupações das principais organizações actuando na área, como a WWW Moçambique, dirigida por Anabela Rodrigues. Uma das reformas implicava mudar o enquadramento penal da caça furtiva. Isso foi feito. Através de uma Lei da Conservação, a caça furtiva passou a ser severamente punida no código penal. A pena que recaiu sobre Mpinga foi aplicada no quadro dessa reforma. Mais recentemente, a Lei sofreu uma adenda para punir severamente todos os envolvidos na cadeia de valor do tráfico, incluindo transporte e comercialização, etc.

É uma mudança radical. O trabalho do governo nas áreas de conservação também melhorou. Celso Coreia teve um golpe de mestre. Foi buscar competência em organizações da sociedade civil, recrutando gente da craveira de Roberto Zolho, um dos gurus da conservação moçambicana. O resultado – decorrente de um quadro legal mais repressivo, fiscais melhor instruídos e coordenados e procuradores do Ministério Público sensibilizados em matéria de conservação – tem sido espantoso. Ao contrário da tendência mundial (descrita no relatório Living Planet, 2018, da WWF, divulgado em todo o mundo no passado dia 30 de Outubro) em que as populações globais de espécies de vertebrados diminuíram em média 60% nos últimos 40 anos, Moçambique tem assistido a uma tendência inversa.

No últimos anos, há uma recuperação notável de populações animais e seus habitats desde a Reserva Especial de Maputo, passando pelo Parque Nacional do Limpopo, o Gorongosa, o Complexo do Marromeu, até a Reserva Nacional do Niassa, esta última escalada por Filipe Nyusi no último fim de semana. A Reserva do Niassa tem sido devastada pela caça furtiva, sobretudo de elefantes. Nas fotos que circulam sobre essa visita percebe-se o envolvimento do Presidente Nyusi numa operação de colocação de colares num elefante.

O Estado entregou a gestão da Reserva do Niassa em 2012 à americana Wildlife Conservation Society (WCS), que gere o zoo de Nova Iorque no Bronx. O gesto de Filipe Nyusi é uma inequívoca demonstração de vontade política contra a caça, apesar da ideologia fundamentalista da WSC que é contra qualquer tipo de caça. Nyusi marca novamente pontos numa área onde todos os outros presidentes foram hesitantes ou mesmo dúbios. Mas há desafios ainda por vencer. Na repressão penal, o peixe graúdo ainda tem saído incólume. Há redes de alta proteção política e judiciária bloqueando a criminalização dessa gente.

Por Marcelo Mosse

Yolanda, uma voz de Moçambique

FB_IMG_1541304189953

Yolanda é cantora e engenheira florestal. Nasceu a 18 de Julho de 1980, em Maputo, e começou a sua careira musical em 2000, num concurso de televisão para novos talentos (Fantasia). Em 2004, fundou a Banda Kakana com o guitarrista e compositor Jim Gwaza, juntando-se a outros músicos profissionais tais como: Amone Jovo (baixo) Klesio (guitarista) e Samito (percussão). Ao longo da sua careira, Kakana tem arrecadado vários prémios: Melhor Voz (TOP NGOMA, 2007 e 2010), revelação (TOP NGOMA, 2007), prémio fusão (TOP NGOMA, 2010), melhor Banda (TOP NGOMA 2009), prémio fusão (Moçambique Music Awards – MMA) e prémio do álbum mais vendido com o disco “Serenata” (Moçambique Music Awards – MMA). É este o percurso da cantora convidada a derradeira série da quinta Temporada de Música Clássica de Maputo.

Texto: Xiquitsi.