José Mucavele – Balada para uma amizade

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Conheci-o em 1981 em Nampula quando, com ele, integrado naquela que terá sido a primeira super-banda moçambicana apos a independencia, – o Grupo RM -, percorremos alguns distritos daquela provincia e a de Cabo Delgado. Desde então continuamos amigos, como não podia deixar de ser. E a propósito do Grupo RM, Luís Loforte, que comigo produzia o extinto Clube dos Entas, escreveu sobre o Zé.
«O projecto do Conjunto RM foi sem dúvida uma ideia interessante, principalmente por ter entretido pessoas e fixado canções até aí reduzidas à sua expressão meramente popular. Não querendo elaborar muito à volta dessa matéria, manda porém a verdade dizer que quem acompanhou como nós o percurso histórico deste agrupamento da nossa estação, sabe o quanto a sua estrutura orgânica limitava, e muito, os horizontes e a criatividade dos inquietos músicos, entre os quais se conta, sem dúvida, o José Mucavele. Era o problema da constelação de estrelas, mas também, e sobretudo, do burocratismo e da compensação nivelada por baixo, os quais, como sabemos hoje tão bem, não são bons parceiros da cultura. Aliás, como toda a tentativa de dirigir a cultura, ou de fazê-la por decretos.»

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“Magunhungu” faz anos

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Por Luís Loforte

Costumo contar algo sempre que uma alma ligada intimamente a mim faz anos. E naturalmente quando o tempo me sobra. É sobre o Edmundo Galiza Matos, pois, que versará o post que lavro. Ele faz anos, hoje, 64. Nasceu, como eu e de ventre comum, em Inharrime, e curiosamente sendo a mesma parteira a assistir a nossa eclosão: Amélia (Madahu) Salomão.

Tivemos destinos opostos em finais de 1955, ele para Moamba, e eu para Matacalane, Inhambane. Pouco tempo depois, porém, a distância que nos separava haveria de diminuir quando ele vai viver para casa de nossos tios maternos, Samuel Simão Sengo/Rosa Mucambe, em Cambine. Mas só por algum tempo, pois um famoso professor que por lá leccionava, o Manuel Paixão (curiosamente pai de uma nossa amiga, a Telmina Pereira), mexeu alguns cordelinhos para que o “miúdo ruivo” não medrasse naquele ambiente agreste. E assim retornou o Edmundo à Moamba, mas não sem antes passar uma temporada em Matcalane, em casa dos avós maternos, onde também me encontrava. Dando um salto no tempo, e tudo para grafar a história que vos reservo, chego ao período em que juntos vivemos em Lourenço Marques, em casa do “Ti-Pedro”. Aí, as histórias são imensas, com destaque para esta:

A Moamba e o Sábiè eram o celeiro de praticamente tudo em LM. De lá chegava, da nossa mãe, o que se destinava ao consumo, e outra para a venda, em banca no Xiphamanine, mais concretamente no Guro, alí em frente ao Espada. A verdade é que éramos sempre os primeiros a esvaziar a banca de tomate, repolho, cebola, pepino. Os clientes tinham uma preferência especial pelos nossos produtos, não porque eles fossem melhores que os dos outros vendedores. Havia algo que os atraía, algo que se tornava imperioso capitalizar. Notei que as pessoas achavam curiosa a presença de um “xilungwana” (branquinho), ainda para mais de cabelo ruivo e traquina, entre as bancas. Então, decidi: “ficas sempre aí que tudo se vai esgotar rapidamente”. Se melhor pensei, melhor o fiz, pois resultou em cliente atrás de cliente: “a xilungwana lexi xa yitiva a male hé wena!” (este branquinho conhece bem o dinheiro, pá!). Mas o dinheiro era imediatamente recolhido, evitando assim o risco de ir cair nas mãos dos vendedores de “ti fiosse” e “ma djalibi”!

Edmundo foi um brilhante jornalista, um óptimo radialista, e hoje um alto bloguista, significando isto, portanto, que ele foi sempre cabeça de cartaz, em tudo, até no mercado do Guro, em Xiphamanine.

Na foto abaixo, mostrando, pacientemente ao meu neto André, de quem é muito amigo, os caminhos por si percorridos na infância distante, em Matacalane. Parabéns, “Magunhungo”!

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O Farol do Cabo Delgado

Texto e fotos: Edmundo Galiza Matos, em Palma

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No sétimo dia do passado mês de Outubro, um domingo, aconteceu aquilo que há muito ansiáva, mas muitas vezes adiado por outros afazeres mais urgentes. A oportunidade apresentou-se, não a desperdicei. Eufóricos, fui visitar um dos marcos históricos mais espectaculares da província de Cabo Delgado; um símbolo moçambicano erguido pelas autoridades coloniais portuguesas, que muitos não conhecem, ou sequer ouviram falar. Logo nas primeiras horas da manhã daquele dia, peguei a estrada que liga a vila de Palma a Quionga, um troço de terra batida há muito a precisar de reparação. Dezena e meia de quilómetros percorridos, enveredei por um desvio que me levou até ao objecto do meu desejo – o famoso e enigmático Farol de quarenta e três metros de altura, erguido há 87 anos no chamado Cabo Delgado.

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Foi uma penosa mas gratificante aventura: até ao lugar onde está implantada a imponente estrutura de cimento armado, fiz um troço de apenas cinco quilómetros, todo ele incrustado de pedregulhos pontiagudos, cinco quilómetros marginados por árvores, arbustos, capim alto e lianas entrelaçadas de forma desordenada. O cenário circundante denuncia o habitat característico da vida selvagem. A viagem durou quase uma hora. Ou seja, cinco quilómetros em quase sessenta minutos. Pessoas a circular por ali? Não vi uma única sequer. O jovem Jamaldine, o meu guia, confirmou o que já imaginava: estava a embrenhar-me nas terras do fim do mundo.

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O faroleiro foi a primeira pessoa que avistei e com quem troquei as primeiras impressões. O homem, satisfeito por estar diante de alguém que de certo iria quebrar a monotonia do seu dia a dia, colocou-se de imediato à minha disposição, respondendo a todas as perguntas com entusiasmo. Com ele visitei o Farol de Cabo Delgado, entramos nas casas meio arruinadas outrora destinadas aos guardas do local e, quando me dei por satisfeitos, convidou-me a visitar uma comunidade de pescadores situada a menos de um quilómetro dali.

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O local – que alguns preferem chamar de acampamento e outros de aldeia – é habitado maioritariamente por pescadores, alguns deles com as respectivas famílias. Depois tem-se uma pequena legião de negociantes, ou seja, indivíduos que ali se encontram para comprar o peixe e outros produtos do mar, transportando-os depois para outros pontos de Moçambique e mesmo para a vizinha República Unida da Tanzania. Simuco é o nome da aldeia, assim se chama o acampamento. Sempre acompanhado pelo solícito faroleiro, e à sombra de alguns coqueiros de baixo porte, entabulei conversa com uma mão cheia de “notáveis” locais.

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Juntos embrenhamo-nos pelas terras do fim do mundo – visitamos o famoso mas ao mesmo tempo desconhecido farol do Cabo Delgado, um marco histórico importante desta província do norte de Moçambique. Dos pescadores e negociantes de peixe que habitam o local registei narrativas sobre a realidade de uma região remota da província de Cabo Delgado, do meu país. É meu desejo que os leitores tenham enriquecido um pouco mais os seus conhecimentos sobre a vida de outros moçambicanos habitantes de zonas longiquas e de difícil acesso.

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Quionga: Fauna Bravia

IMG_6580Para além destes pequenos símios, comuns em todo o país, abundam nesta região do distrito de Palma, gazelas (cabritos do mato) e coelhos. Predadores, como leões e leopardos, são avistados, mas muito raramente. Um camponês disse-me que sabe da existência de um casal de leões, que não “faz mal a ninguém porque tem muita gazela por aí”. Testemunhos dizem que “foram-se embora”. Para onde, não sabem dizer. Não há notícia da acção de caçadores furtivos nos últimos tempos. Provavelmente porque a população de paquidermes reduziu drasticamente, ou porque movimentou-se para as bandas de Negomano, no distrito de Mueda, fronteira com a Tanzania.

O dedo do Nyusi no gatilho contra a caça furtiva

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Há pouco mais de duas semanas, o famoso Mpinga, um caçador inveterado de elefantes que disparou contra fiscais da Coutada 12, em Sofala, apanhou 14 anos de prisão efectiva na Beira. Foi a primeira grande machadada dissuasória da caça furtiva em Moçambique. Pela primeira vez, um operacional de nomeada era condenado no quadro de uma nova vaga de reação penal contra o abate desmesurado de espécies protegidas. A condenação de Mpinga, amplamente celebrada no seio da classe local de conservacionistas, teve uma enorme dimensão simbólica pois tratou-se do indicador mais empírico de uma mudança de paradigma no sector da conservação em Moçambique. Durante muitos anos, o discurso oficial fez vista grossa à caça furtiva. Para alimentar esse olhar opaco foi institucionalizado um chavão pernicioso: a ideia de conflito homem-animal, no quadro do qual o abate de espécies protegidas foi generalizado. Os animais eram uns inimigos facínoras da existência humana. Eles tinham de ser abatidos!

As autoridades da administração local do Estado foram equipadas com armas de caça para fazerem a defesa das comunidades. E armas foram espalhadas pelo país de forma imensurável. A caça furtiva recrudesceu. A ganância aumentou. Rinocerontes dizimados. Quando o governo de Filipe Nyusi tomou posse, em 2015, o Ministro Celso Correia (do MITADER) começou a ouvir, sem preconceitos, as preocupações das principais organizações actuando na área, como a WWW Moçambique, dirigida por Anabela Rodrigues. Uma das reformas implicava mudar o enquadramento penal da caça furtiva. Isso foi feito. Através de uma Lei da Conservação, a caça furtiva passou a ser severamente punida no código penal. A pena que recaiu sobre Mpinga foi aplicada no quadro dessa reforma. Mais recentemente, a Lei sofreu uma adenda para punir severamente todos os envolvidos na cadeia de valor do tráfico, incluindo transporte e comercialização, etc.

É uma mudança radical. O trabalho do governo nas áreas de conservação também melhorou. Celso Coreia teve um golpe de mestre. Foi buscar competência em organizações da sociedade civil, recrutando gente da craveira de Roberto Zolho, um dos gurus da conservação moçambicana. O resultado – decorrente de um quadro legal mais repressivo, fiscais melhor instruídos e coordenados e procuradores do Ministério Público sensibilizados em matéria de conservação – tem sido espantoso. Ao contrário da tendência mundial (descrita no relatório Living Planet, 2018, da WWF, divulgado em todo o mundo no passado dia 30 de Outubro) em que as populações globais de espécies de vertebrados diminuíram em média 60% nos últimos 40 anos, Moçambique tem assistido a uma tendência inversa.

No últimos anos, há uma recuperação notável de populações animais e seus habitats desde a Reserva Especial de Maputo, passando pelo Parque Nacional do Limpopo, o Gorongosa, o Complexo do Marromeu, até a Reserva Nacional do Niassa, esta última escalada por Filipe Nyusi no último fim de semana. A Reserva do Niassa tem sido devastada pela caça furtiva, sobretudo de elefantes. Nas fotos que circulam sobre essa visita percebe-se o envolvimento do Presidente Nyusi numa operação de colocação de colares num elefante.

O Estado entregou a gestão da Reserva do Niassa em 2012 à americana Wildlife Conservation Society (WCS), que gere o zoo de Nova Iorque no Bronx. O gesto de Filipe Nyusi é uma inequívoca demonstração de vontade política contra a caça, apesar da ideologia fundamentalista da WSC que é contra qualquer tipo de caça. Nyusi marca novamente pontos numa área onde todos os outros presidentes foram hesitantes ou mesmo dúbios. Mas há desafios ainda por vencer. Na repressão penal, o peixe graúdo ainda tem saído incólume. Há redes de alta proteção política e judiciária bloqueando a criminalização dessa gente.

Por Marcelo Mosse

Yolanda, uma voz de Moçambique

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Yolanda é cantora e engenheira florestal. Nasceu a 18 de Julho de 1980, em Maputo, e começou a sua careira musical em 2000, num concurso de televisão para novos talentos (Fantasia). Em 2004, fundou a Banda Kakana com o guitarrista e compositor Jim Gwaza, juntando-se a outros músicos profissionais tais como: Amone Jovo (baixo) Klesio (guitarista) e Samito (percussão). Ao longo da sua careira, Kakana tem arrecadado vários prémios: Melhor Voz (TOP NGOMA, 2007 e 2010), revelação (TOP NGOMA, 2007), prémio fusão (TOP NGOMA, 2010), melhor Banda (TOP NGOMA 2009), prémio fusão (Moçambique Music Awards – MMA) e prémio do álbum mais vendido com o disco “Serenata” (Moçambique Music Awards – MMA). É este o percurso da cantora convidada a derradeira série da quinta Temporada de Música Clássica de Maputo.

Texto: Xiquitsi.

Palma: As raparigas, a escola e os casamentos prematuros

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Foi em Mocímboa da Praia, sexta-feira, em pleno período em que estas meninas deviam estar na escola. Disseram-me que estavam a procurar do que comer. Foi em Mocímboa, mas podia ser em qualquer outro lugar de Moçambique. São milhares de crianças como estas que não estudam, se estudam cedo abandonam, ou por imposição dos pais para ajudar nas lides domésticas, ou, o que é pior, porque são forçadas a casar prematuramente. Raros são os casos de meninas que se recusam a cumprir os desígnios dos progenitores, mas existem. Em Quionga, na única Escola Primária Completa local, conheci uma rapariga que se recusou terminantemente a casar aos 15 anos. Os país chegaram mesmo a dizer que ela fosse “viver lá nessa tua escola”. Debalde. A miuda hoje está na sétima, é o orgulho dos pais. Um exemplo que abordarei numa reportagem sobre o ensino no distrito de Palma.
Foto: #Edmundogalizamatos |#Outubro2018