Palma: A revolução do gás

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Jovens mulheres da vila de Palma/Foto Edmundo Galiza Matos

Lugarejo esquecido nos confins, Palma vem sendo sacudida, a partir de 2012, por ventos e ondas paridas nas profundezas do oceano. Nada igual houvera sido visto antes. As gentes da terra, no ramerrame há séculos, são envolvidas num turbilhão causado por ‘vientes’, que trazem consigo gigantescas máquinas e que, dai há pouco, começaram a sulcar, numa doida correria, as vielas esburacadas e as aguas mansas do mar ali perto. Tudo e todos ganham nova vida, adquirem asas. O vende e compra de rua – um mister inoculado pelos árabes – agiganta-se e o dinheiro, muito dinheiro, circula até pelas mãos dos indigentes. Os bancos acotovelam-se, o gigante Standard Bank divide paredes com o Millennium BIM, e o BCI já pensa em abrir mais um balcão. Garridas capulanas engalanam as mulheres, os cofiós ricamente bordados e veículos motorizados sinalizam novos estatutos. E abrem-se hospedarias para todos os bolsos. E os botequins implantam-se em qualquer esquina. Espaços desocupados ou em pousio são sinalizados indicando propriedade. Hoje esta-se como que no início de uma prova de fundo: os atletas, em posição de arranque, esperam pelo apito para o início de uma corrida em que todos, se inteligentemente preparados, podem sair a ganhar. E muito.

Por Edmundo Galiza Matos

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Masais ‘invadem’ Moçambique

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Um Masai numa praia de Mocímboa da Praia/Foto de Edmundo Galiza Matos

São poucos ainda, mas chamam a atenção pela sua estatura e vestuário. Vemo-los sobretudo nas vilas de Palma, Mocímboa da Praia e Mueda, situadas não muito distante da República Unida da Tanzania, de onde são originários – região de Arusha. Alguns deles para cá vieram com as respectivas esposas. Dedicam-se à venda de artigos de couro – sandálias, cintos, pulseiras – percorrendo incansavelmente, de manhã até ao fim da tarde, as ruas das trés vilas. As mulheres, essas, montam as “bancas” nos mercados informais. E porque a sua lingua – o swahili – é também falado entre as populações locais – facilmente se entendem com os potenciais compradores.

Moamba: Pode-se contornar o futuro, mas nunca o passado (*)

Moamba - Edmundo Galiza Matos e Luis Loforte

O autor do texto, Luis Loforte, e Edmundo Galiza Matos, num rondável do hospital da vila da Moamba.

Fomos esta manhã a Moamba para recordar um irmão, o Guilherme, Gondinho ou “Bocas”, se preferirem. Perfaria hoje, 5 de Dezembro, 60 anos de vida. A sua morte prematura, em 2001, inviabilizou esse desiderato. Rezámos no seu último reduto e depois revisitámos a memória assente numa vila que nos albergou no passado. Em 1955 chegou a nossa mãe a Moamba com o Edmundo Galiza Matos ao colo. Estávamos ambos em Inharrime. Fui a Morrumbene viver com os avós maternos. Mas em 1962 havia de pisar a Moamba para, na prática, conhecer a mãe, eu que nasci em 1952. Ia fazer 10 anos nesse ano longínquo. Reuni-me ao Edmundo e a outros irmãos, dormindo no rondável que se vê na imagem e feito para a eternidade: não racha e não desbota, fazendo pouco de obras que consomem milhões de dólares para durarem apenas o tempo de ir e vir de uma esquina próxima.

Vila da Moamba

Uma das artérias da vila da Moamba.

Percorremos a vila e o reencontro com o passado foi feito de grandes emoções. Parámos na Escola de Artes e Ofícios e lembramo-nos do António Freitas (Guinha-Guinha), no “Mathandela”, no “Nwa Mufoto” (o fotógrafo), onde vivemos lado a lado com o casal Honwana, os pais do escritor Luís Bernardo Honwana, no “Patel”, no “Barbosa” e no “Restaurante Bar Flor da Moamba” (onde vi, pela primeira vez, um reclamo luminoso). No botequim do Cristóvão lembrei-me da Josefina (Tchosofina), perita em seduzir e depois surripiar os proventos acumulados nas minas pelos mamparras magaízas; no Barbosa, vieram-me aos ouvidos os orgulhos gritados de raparigas que, bebendo mistelas de água e açúcar com códeas de pão, atiravam para as menos afortunadas: “Wo ni tcha a semendeni ka Barabosa” (deixa-me gozar a vida no cimento do Barbosa), ou ainda aquelas que saindo das lojas do Bemat Patel gabavam os filhos do proprietário: “Ka Gulamo minô, ka Faruki minô!” (Ai o Gulamo e o Faruk!). Gulamo e Faruk, personagens centrais do “Nós Matámos o Cão Tinhoso”, foram grandes futebolistas da Moamba. Pois é, quem se esconde do seu passado não merece a cidadania de que se veste!

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(*) Texto de autoria de Luís Loforte escrito em dezembro de 2017.

Mocímboa da Praia – Ritos de Iniciação

Ritos_iniciação_mocimboa_edmundo_matosO sol não se atrevera ainda a despontar, sou arrancado do sono por uma barulheira de xipalapalas, vuvuzelas e apitadelas. Por uma frincha da janela vejo apenas o reflexo da lua sobre as aguas mansas da praia. A estridência prosseguia e sou impelido a sair do contentor feito quarto para saber o que se passava. Difusos entre a bruma, consigo ver vultos a saltitar grotescamente, uns a entrar na agua aos gritos e risos, a perseguirem-se uns aos outros, ou a rebolar no tapete cristalino de areia. Tratava-se afinal de crianças, muitas, e adolescentes. Todas do sexo feminino. Cerca de uma centena. Duas ou trés mulheres parecem ser as líderes daquele grupo. Aproximo-me delas e sou recebido cordialmente depois do meu roufenho “bom dia”. Ritos de iniciação, fico a saber. E adiantam logo, para desfazer a minha estranheza – “Estão a lavar as impurezas do corpo”, diz uma delas. Sou autorizado a tirar fotografias.

Mocímboa da Praia tem o seu festival de sabores locais

Mulheres_mwanis_mocimboa_praiaFica para a história – A vila costeira de Mocímboa da Praia, norte de Moçambique, tem a partir desta sexta-feira, 23, o seu Festival das Ostras. Foi o primeiro e o Conselho Municipal local quer que seja todos os anos. Sabores da terra com base nos produtos do mar – o mbare, é um deles, foram a principal atracção. No fundo, o que se pretende é atrair turistas para a vila, sobretudo agora que a região norte da província está a ser palco de mega projectos na área dos hidrocarbonetos. Com eles estão a convergir para aqui milhares de pessoas de diversas nacionalidades para trabalhar em empresas que se estão a instalar.

Para além dos diversos pratos tradicionais, aos visitantes foram servidas bebidas frescas como a mazízima, na imagem transportada num nvulo (pote de barro) por uma das participantes no evento.

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Anadarko promete entregar 175 casas às comunidades de Afungi no início de 2019

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Ivo Lourenço, da empresa Anadarko em Palma.

A multinacional petrolífera norte-americana Anadarko compromete-se a entregar 175 casas no início do próximo ano às famílias abrangidas pelo processo de reassentamento na península de Afungi, distrito de Palma, na província de Cabo Delgado, no âmbito da implementação do projecto de gás natural liquefeito (LNG) na Bacia do Rovuma.

Trata-se da primeira fase do projecto de reassentamento da zona onde será instalada a unidade de processamento de gás natural liquefeito (LNG) na Bacia do Rovuma, em que um total de 161 casas serão para as comunidades e 14 para funcionários públicos, de um total de 550 habitações para reassentar todas as famílias abrangidas pelo projecto.

Em declarações à Rádio Moçambique, o gestor do projecto da Anadarko, Ivo Lourenço, disse que já foram transferidas 28 campas do local onde está a ser construida a vila onde ocorrerá o reassentamento.

“Iremos transferir mais campas. Estávamos cientes que não podíamos pôr máquinas com campas lá. Esse é um elemento muito importante. Tivemos que ter muito cuidado no processo de conversação com essas famílias e comunidades, procurando saber quais são os seus hábitos e costumes,” explicou.

Destacou ainda a boa relação entre a multinacional, que se dedica à prospecção e exploração de hidrocarbonetos na Bacia do Rovuma, e as comunidades locais.

“Conseguimos notar a sua satisfação quando vêem as suas futuras casas”, disse.

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Uma das casas já prontas a habitar pelos reassentados – foto Edmundo Galiza Matos

O projecto da Anadarko, o primeiro onshore realizado em Moçambique, inclui a construção de dois módulos de produção com capacidade total de 12,88 milhões de toneladas por ano (MTPA) de gás natural para o desenvolvimento dos campos de Golfinho/Atum localizados exclusivamente na Área 1 Offshore.

A Anadarko Moçambique Área 1 Lda., uma subsidiária integral da Anadarko Petroleum Corporation, é a operadora da Área 1 Offshore, com uma participação de 26.5 por cento. O co-empreendimento inclui a ENH Rovuma Área Um, S.A. (15 por cento), Mitsui E&P Mozambique Area1 Ltd. (20 por cento), ONGC Videsh Ltd. (10 por cento), Beas Rovuma Energy Mozambique Limited (10 por cento), BPRL Ventures Mozambique B.V. (10 por cento) e PTTEP Mozambique Area 1 Limited (8.5 por cento).

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Uma das casas já prontas a habitar pelos reassentados – foto Edmundo Galiza Matos