Historiadores americanos defendem que Portugal deve pedir desculpa por tráfico de escravos

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A visita de Marcelo Rebelo de Sousa à Casa dos Escravos, na ilha de Gorée, no Senegal

Os líderes políticos portugueses devem pedir desculpa pelo papel do país no tráfico de escravos e incentivar uma discussão sobre o tema na sociedade portuguesa, defendem especialistas americanos ouvidos pela Lusa.

“O facto de que vários países decidiram que era importante fazê-lo sugere uma nova norma que merece reflexão. Do meu ponto de vista, um reconhecimento do passado contribui para um sentimento coletivo de reconhecimento de desumanidades do passado”, disse à Lusa Walter Hawthorne, da Universidade de Michigan.

“O apoio do estado para estas iniciativas pode galvanizar a investigação e ajudar a informar melhor o público”, explicou à Lusa Christopher Brown, professor da Universidade de Columbia, em Nova Iorque.

Para o docente, esta impacto ficou evidente com o Museu de história Afro-Americana, uma iniciativa do presidente George W. Bush, autorizada pelo Congresso, que inaugurou em Washington no ano passado e foi o primeiro espaço na capital dos EUA dedicado à história dos afro-americanos.

Brown acredita que quando um líder político fala sobre estes temas “leva a história a uma audiência muito mais ampla do que os académicos alguma vez conseguiriam e desperta a curiosidade de todos aqueles que nem tinham pensado sobre isso antes.”

“Por isso, sim, a liderança política pode fazer uma grande diferença, sobretudo se acompanhada por um apoio do estado para melhorar o conhecimento e compreensão sobre o tema”, conclui.

Em abril, o presidente Marcelo Rebelo de Sousa visitou a ilha de Gorée, no Senegal, e disse que o poder político português reconheceu a injustiça da escravatura quando a aboliu em parte do seu território, “pela mão do Marquês de Pombal, em 1761”.

As declarações foram feitas no mesmo local em que, anos antes, o Papa João Paulo II pediu perdão pela escravatura.

A decisão de Rebelo de Sousa trouxe para a opinião pública uma discussão que até então estava praticamente reduzido à academia.

Walter Hawthorne, autor de livros como “From Africa to Brazil: Culture, Identity, and an Atlantic Slave Trade 1600-1830”, acredita que “um pedido de desculpas deve focar-se numa ação, com reconhecimento das consequências, e terminar com uma ação corretiva”, como a criação de um museu ou um centro de investigação.

“Um pedido de desculpas ajudaria os 5.8 milhões de africanos tornados escravos e embarcados em navios com a bandeira de Portugal? Ajudaria aqueles que foram mortos em guerras causadas pelo tráfico de escravos? Por aqueles que sofreram há centenas de anos? Não, mas seria um passo em frente para melhorar a relação hoje em dia entre pessoas com cores diferentes”, defende.

“Grandes pessoas pedem desculpas e tornam-se melhores pessoas. Grandes países cometeram atrocidades. Grandes países pedem desculpa. Quando os seus líderes tomam essa ação, elevam os seus países”, acrescenta.

Hawthorne cresceu no sul dos EUA, um território marcado pela escravatura, e diz que conhece “bem as atrocidades que foram cometidas e a ligação que existe entre o trafico de escravos no atlântico e racismo, desigualdades globais em termos monetários, educação, emprego, saúde e muito mais.”

“As atrocidades dos meus antepassados devem ser reconhecidas e discutidas para que todos possamos curar. Claro que os líderes políticos são centrais para esta discussão. Devem liderar. Mas quando eles falham, devemos atuar sem eles”, explica.

O especialista acredita que os académicos portugueses têm feito esse trabalho, com alguns dos melhores meios disponíveis em todo o mundo, e que por isso a discussão em Portugal vai continuar, com ou sem liderança política.

“Portugal acolhe coleções de arquivos incríveis e bibliotecas que iluminam a história da escravatura. Nas suas universidades, encontram-se alguns dos melhores historiadores da área, pessoas que dedicaram a sua vida a escrever livros e artigos para envolver o publico nestas importantes, mas distantes, discussões”, conclui.

Fonte: Lusa

Nyusi “orgulhoso” dos dois anos e meio de mandato

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– Filipe Nyusi, presidente de Moçambique.

O Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, manifestou-se esta sexta-feira “orgulhoso” do balanço dos dois anos e meio de mandato, reconhecendo que há ainda muito por fazer para que o crescimento do país tenha impacto em todos os moçambicanos.

“Embora estejamos orgulhosos por aquilo que conseguimos fazer, no meio de muitas adversidades, nunca descansaremos. Há ainda muito trabalho por realizar”, referiu o chefe de Estado numa mensagem de balanço distribuída esta sexta-feira à comunicação social.

Na mensagem, Filipe Nyusi assinala que tomou posse, a 15 de janeiro de 2015, num momento difícil, mas volvidos dois anos e meio, o seu Governo alcançou muitos progressos.

Apesar destes desafios, os últimos dois anos e meio foram de muitas atividades. Aumentamos o nosso apoio aos agricultores para que mais produção fosse feita em Moçambique, induzindo a redução de preços no mercado”, refere na mensagem.

Ao longo deste período, prossegue no texto, o Governo promoveu a asfaltagem e manutenção de milhares de quilómetros de estradas e a construção de linhas férreas para tornar Moçambique acessível às populações e aos empresários.

Conseguimos prover energia elétrica a 380.735 habitações, o que representa 30% de cobertura e concluímos sistemas de abastecimento, fazendo chegar a água a mais de 360 mil moçambicanos”, refere na mensagem.

Durante a metade do mandato, foram ainda construídas novas infraestruturas hoteleiras e de restauração, resultando na entrada de cerca de dois milhões de turistas.

Filipe Nyusi defende que nos dois anos e meio que faltam vai lutar por trazer Moçambique de volta aos carris do progresso e empenhar-se em assegurar que os benefícios do crescimento tenham impacto direto e sejam sentidos por cada um dos moçambicanos.

Continuaremos a investir na saúde, educação, infraestruturas, turismo e agricultura, ao mesmo tempo que combateremos vigorosamente a corrupção e todas as suas manifestações”, diz ainda na mensagem.

A aposta irá também para a atração do investimento estrangeiro e a mobilização de mais parceiros, visando maximizar o potencial de crescimento do país.

Na mensagem, Filipe Nyusi faz também menção à atual situação política do país, defendendo que o diálogo franco, aberto e sem preconceitos, com todas as forças vivas da sociedade, incluindo a Renamo, principal partido de oposição, permitiu que o país alcançasse “uma paz relativa”.

A nossa meta é uma paz efetiva e duradoura”, acrescentou.

Filipe Nyusi tomou posse a 15 de janeiro de 2015, tornando-se no quarto Presidente da República, desde a independência do país, em 1975, e o terceiro democraticamente eleito, desde a aprovação da primeira constituição multipartidária em 1990.

O mandato do atual chefe de Estado termina em 2019 e ainda não se pronunciou sobre a candidatura a um segundo.

Os quatro presidentes que Moçambique já teve são todos da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), partido no poder desde a independência.

Fonte: Lusa

Cinema em exibição em estações ferroviárias no sul de Moçambique

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Cena do filme de ficção “Comboio de Sal e Açúcar”

O novo filme de ficção “Comboio de Sal e Açúcar”, do cineasta moçambicano Licínio Azevedo, vai ser exibido nas estações dos Caminhos de Ferro de Moçambique (CFM) na linha de Ressano Garcia, sul do país.

“A ideia é levar o filme para os pontos que nós usamos para fazer as gravações e, de certo modo, apresentar às populações o resultado”, disse à Lusa Lucínio Azevedo.

A caravana, a ser organizada pela Associação Moçambicana de Cineastas e pela Ebano Multimédia, vai escalar 12 estações ao longo da linha de Ressano Garcia, na província de Maputo, num programa que está orçado em cerca de 20 mil dólares (17 mil euros).

Para Lucínio Azevedo, a iniciativa vai também descentralizar iniciativas cinematográficas, numa altura em que a província de Maputo tem apenas duas salas de cinema e que estão localizadas nas cidades de Maputo e Matola.

“É uma iniciativa muito importante, na medida em que leva o cinema às populações, que muitas vezes não têm tido acesso às salas de cinema”, frisou o cineasta, lembrando que a intenção é levar este filme também para as linhas do centro e norte de Moçambique.

“Continuamos buscando parcerias para o projeto”, declarou Lucínio Azevedo, destacando o apoio do Ministério da Defesa e dos Caminhos de Ferro de Moçambique (CFM), que disponibilizaram, respetivamente, armas e uma locomotiva para a gravação de “Comboio de Sal e Açúcar”.

O filme resulta de uma adaptação do livro com o mesmo nome, escrito há 15 anos por Lucínio Azevedo e que narra a história de uma enfermeira que se apaixona por um militar durante a viagem de um comboio que, em plena guerra civil moçambicana, procura chegar ao seu destino sob iminente perigo de confrontos militares

“Comboio de Sal e Açúcar” estreou-se recentemente em Maputo, tendo batido recordes de bilheterias em quatro semanas.

Antes da estreia, tinha passado por festivais e em Joanesburgo, na África do Sul, até foi distinguido com o prémio de Melhor Filme.

A película junta atores de Moçambique, Angola e Brasil e resulta de uma colaboração entre a Ukbar Filmes e a moçambicana Ébano Multimédia.

Fonte: Lusa

Antigo ministro da Justiça de Moçambique condenado a dois anos de prisão

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Lino de Almeida, antigo ministro moçambicano da Justiça

O antigo ministro moçambicano da Justiça Abduremane Lino de Almeida foi hoje condenado a dois anos de prisão e seis meses de multa por crimes de abuso de funções e remunerações indevidas.

O Tribunal Judicial Kampfumo deu como provado que Abduremane Lino de Almeida pagou mais de um milhão de meticais a três pessoas que não tinham qualquer vínculo com o Estado, através de erário público, na sequência de uma viagem religiosa para Meca.

O antigo ministro da Justiça, Assuntos Constitucionais e Religiosos deverá também restituir aos cofres do Estado o valor despendido.

O juiz João Guilherme disse que a sentença servirá para desincentivar o abuso de poder e o uso indevido de fundos do Estado, dois crimes que, considerou, têm vindo a ganhar espaço em Moçambique.

“O uso impróprio dos fundos públicos é, infelizmente, um mal generalizado entre nós, um mal que está a perpetuar-se. É urgente que o Estado, através do poder judicial, dê sinais claros, responsabilizando os autores à medida das suas ações”, afirmou João Guilherme.

O advogado de Abduremane Lino de Almeida disse que não esperava esta sentença por parte do tribunal.

“Os nossos argumentos são bem conhecidos. Nós temos a convicção de que o réu não cometeu nenhum crime”, afirmou Augusto Chivangue.

A defesa de Abduremane Lino de Almeida alega que, na deslocação para Meca, o antigo ministro cumpria “ordens superiores”, em representação do Estado moçambicano.

Abduremane Lino de Almeida deixou o cargo de ministro da Justiça, Assuntos Constitucionais e Religiosos em março de 2016, um ano após a investidura do governo de Filipe Nyusi, na sequência da sua vitória nas eleições gerais de outubro de 2014.

Na altura da sua exoneração, o processo já havia sido instaurado.

Fonte: Lusa

Jimmy Dludlu será atracção no Jazz na Fábrica (São Paulo)

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– O moçambicano Jimmy Dludlu

Mais uma edição do festival Jazz na Fábrica, no Sesc Pompeia, foi anunciada e a chapa esquentou mais uma vez para os fãs de jazz.

Chamou atenção especialmente o nome do baixista e cantor Thundercat. Stephen Bruner, de 32 anos, é um dos grandes destaques da nova cena de Los Angeles, sendo parceiro do produtor Flying Lotus e do jazzista Kamasi Washington .

Ele também empresta o seu talento para artistas tão diversos como a banda Suicidal Tendencies, Snoop Dogg e Erykah Badu.

O ícone da nova música chega amparado por um álbum que fez bastante barulho no meio alternativo, Drunk.

O festival em São Paulo ocorre entre os dias 10 e 27 de agosto apresentam-se ainda o pianista sul-africano Abdullah Ibrahim,o trompetista Roy Hargrove e Hermeto Pascoal.

Outros nomes que estão programação são Eddie Allen (EUA), Globe Unity Orchestra (ALE), Annete Peacock (EUA), Jimmy DluDlu (Moçambique), Pat Thomas (Gana), Debo Band (EUA), Chicuelo-Mezquida (ESP), Itamar Borochov (Israel), Hadar Noiberg (Israel) e os brasileiros Nenê, Soundscape Big Band, Jazzmin’s e Amaro Freitas.

Os ingressos começam a ser vendidos no início de agosto pelo http://www.sescsp.org.br e nas unidades do Sesc.

Por Fabiano Alcântara (virgula.uol.com.br)

Exigência de explicações para visto de fronteira lesa o turismo em Moçambique – operadores

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Praia da Ponta de Ouro, no sul de Moçambique

O presidente da Federação Moçambicana de Turismo e Hotelaria (FEMOTUR), Quessanias Matsombe, disse hoje à Lusa que a ação dos serviços de migração moçambicanos de condicionarem a concessão do visto de fronteira está a lesar o setor.

Contrariando o entendimento dos operadores turísticos e da restauração em Moçambique, o Serviço Nacional de Migração (SENAMI) defende que a concessão de visto à chegada para estrangeiros de regiões onde o país tem representação diplomática, deve depender da explicação dada para o facto de não o terem pedido na origem.

Fonte no aeroporto internacional de Maputo disse à Lusa que não se têm registado casos de rejeição de visto à chegada para turistas oriundos de regiões de onde tradicionalmente partem viajantes para Moçambique, como União Europeia, Brasil, EUA e África do Sul.

Seja como for, em declarações à Lusa, o presidente do FEMOTUR considera que a interpretação do SENAMI é uma surpresa desnecessária para quem chega ao país.

Quessanias Matsombe disse mesmo que é uma situação que viola o espírito do compromisso assumido pelo Presidente da República, Filipe Nyusi, e pelo Governo, no sentido de remover os obstáculos ao turismo no país, tal como referido em encontros com os operadores do ramo.

“Estamos surpreendidos e desiludidos com essa situação, pois temos defendido que os condicionalismos na obtenção do visto são um estrangulamento ao desenvolvimento do turismo e da restauração no país”, afirmou Quessanias Matsombe.

A prática nos países que apostam no desenvolvimento do turismo, prosseguiu, é a atribuição automática do visto de fronteira a quem apresente uma reserva num hotel e um bilhete de viagem de ida e volta.

“Manter obstáculos na concessão do visto é prejudicar toda a cadeia que faz parte do turismo e a economia do país, devido ao peso que este setor tem”, assinalou.

Quessanias Matsombe referiu que os responsáveis pelo setor vão continuar a pressionar o governo para que a atribuição de visto a turistas seja facilitada.

A porta-voz do SENAMI, Cira Fernandes, afirmou à Lusa que a exigência de uma fundamentação para a emissão do visto de fronteira é uma medida necessária à segurança do país, pois impede a entrada de estrangeiros que possam representar um perigo.

“Não está abolido o visto de fronteira para estrangeiros de países onde Moçambique tem representação diplomática ou consular, o que se exige é uma fundamentação para a preferência pelo visto de fronteira”, declarou Cira Fernandes.

Segundo a mesma fonte, a exigência está explicita na alteração introduzida no início deste ano pelo decreto governamental sobre a concessão do visto de fronteira e não é uma vontade arbitrária dos serviços de migração.

“O próprio decreto impõe uma fundamentação do requerente sobre a necessidade de um visto no ponto de trânsito para o país”, acrescentou Cira Fernandes.

Fonte do posto fronteiriço do Aeroporto Internacional de Maputo disse à Lusa que não se têm registado casos de rejeição de visto de entrada no país para turistas oriundos de países de onde tradicionalmente chegam a Moçambique, como da União Europeia, Brasil, EUA e África do Sul devido às relações estreitas com estes países.

“Cidadãos de países normalmente emissores de turistas para Moçambique voltam sempre à origem e não há razões para desconfiar que não regressarão”, declarou a fonte.

O escrutínio dos serviços migratórios é mais apertado para turistas de países com mais imigrantes ilegais em Moçambique, nomeadamente da região dos Grandes Lagos, do Corno de África e da África Ocidental.

“Esses [cidadãos dessas regiões] normalmente estão em trânsito para a África do Sul ou vêm a Moçambique juntar-se a familiares que estão no comércio”, concluiu a fonte.

Fonte: Lusa

Mia Couto – O escritor e seus fantasmas

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Sua obra “Terra Sonâmbula” foi considerado um dos melhores livros africanos do século 20 (Foto: Torch Fotografia/Brain Congress/Divulgação)

A entrevista foi na antiga Casa de Jorge Amado, no Rio Vermelho. Mia Couto estava à vontade e não seria exagero dizer que ele se sentia quase em casa. Os olhos um tanto esbugalhados, como a trair uma surpresa muito íntima, voz suave, mas firme, Mia lembra, com uma ponta de magoa, seu passado comunista. “O comunismo se autodestruiu”, afirma. Além de escritores mundialmente conhecidos, o comunismos foi o elo forte a unir  os dois. “Eu me dediquei à causa e em Moçambique, depois da guerra de libertação chegamos a estabelecer um regime marxista-leninista, mas não era o que eu sonhava”, lembra. “Naquele tempo eu só pensava em sobreviver. Comer e sobreviver.”

Faz uma breve pausa e olha indefinidamente o vazio. Parece que ele olha o vazio, mas que não é o vazio que ele vê e, sim, os anos duros da guerra de libertação colonial contra Portugal. Cada frase é seca. Curta. Perfurante como uma baioneta. Sonora como tiros de metralhadora. O que estará lembrando Mia Couto? Que ele, como Jorge Amado, romperam com o Partido comunista? Se ele ainda se considera ou não um homem de esquerda? Ou dos livros de Jorge Amado que leu na juventude: Jubiabá, Capitães de Areia… Ele sente indisfarçável orgulho em ter lido Jorge Amado, como sente orgulhoso  em lembrar que lutou  na Frente de libertação de Moçambique, Não, a guerra terminou em 1992 e a história ele registrou – e vale lembrar com vigor e talento – em Terra sonâmbula -, um dos magníficos livros da sua vasta obra. Ele diz, logo no início: “naquele lugar, a guerra tinha morto a estrada. Pelos caminhos só as hienas se arrastavam, focinhando entre cinzas e poeira. A paisagem se mestiçara de tristezas nunca vistas, em cores que se pegavam à boca. Eram cores sujas, tão sujas que tinham perdido toda a leveza, esquecidas da levantar asas pelo azul. “Não, Mia não perdeu a leveza. Ele, um “simples sonhador” , está a pensar no Brasil. “Se há solução para o país?”

Diz repetindo a pergunta de um jornalista. “Vocês não estão sozinhos na crise. O mundo inteiro está em crise. É claro que existe amanhã”. Ele volta se fechar em silêncio como no final de Terra sonâmbula. A entrevista estava terminando. Logo depois ele faria conferência no Teatro Castro Alves sobre “Os deuses dos outros”, como parte da programação Fronteiras Braskem do Pensamento.

Teatro lotado. Mia Couto pensa para além do momento: pensa nos refugiados, na fragmentação do mundo e nos problemas da democracia . Pensa, igualmente, nos jardins da Casa de Jorge Amado e na sonoridade dos pássaros que em nada lembram o ruído das metralhadoras nos anos de guerra em Moçambique . A guerra acabou e agora os problemas são outros. Há toda uma geração começando a descobrir os livros e sendo educada. A procura de trabalho. É como se o final de Terra sonâmbula ganhasse vida: “Então as letras, uma por uma , se vão convertendo em grãos de areia e, aos poucos, todos os meus escritos se vão transformando em paginas da terra.” Pois, Mia Couto, não é mais comunista, mas permanece engajado: o papel do escritor vai além, muito além, de escrever e publicar livros.  É o que ele tem feito. Procurando vencer os preconceitos, romper com a intolerância. Bravo Mia Couto, um homem branco que não se sente segregado entre milhões de negros .

Por Francisco Viana é jornalista e doutor em Filosofia Política (PUC -SP)

Dívida de Moçambique não afecta significativamente o crescimento – Consultora

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A consultora Capital Economics considerou hoje que a crise da dívida soberana em Moçambique não deverá nem travar os investimentos externos nem afetar significativamente o crescimento económico do país, que deverá acelerar nos próximos anos.

“A economia de Moçambique está a virar a página, e esperamos que o crescimento vá acelerar nos próximos anos”, lê-se num relatório sobre as economias africanas.

No documento, enviado aos investidores e a que a Lusa teve acesso, os analistas da Capital Economics escrevem: “As dívidas de Moçambique ainda precisam de ser renegociadas, mas duvidamos que isto tenha um efeito significativo na economia real”.

Lembrando que no ano passado o crescimento “reduziu-se abruptamente” devido aos efeitos da dívida escondida na moeda nacional e na produção agrícola, que empurrou a inflação para cima dos 20%, os analistas dizem que “os investimentos estrangeiros mantiveram-se”, nomeadamente por parte da petrolífera italiana Eni, que assinou a decisão final de investimento num projeto de 7 mil milhões de dólares.

Os investimentos no setor do gás natural “vão fazer o crescimento económico acelerar nos próximos anos, com o pico do crescimento a acontecer quando a produção comercial começar, no princípio da próxima década.

A Capital Economics prevê que Moçambique cresça 4,5% este ano, crescendo 5% em 2018 e 5,5% em 2019, depois de no ano passado o país ter registado o mais baixo crescimento dos últimos 15 anos, com uma expansão da riqueza na ordem dos 3,3%.

Fonte: Lusa

Lula da Silva condenado a nove anos e meio de prisão

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Alvo de investigações, Lula indicou intenção de concorrer à Presidência em 2018

O juíz Moro sentenciou o antigo Presidente pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso de um tríplex do Guarujá. É a primeira vez que um antigo Presidente é condenado por corrupção.

A sentença do juíz Sérgio Moro é a primeira contra Lula no âmbito da Operação Lava Jato. Moro é o responsável pelos julgamentos do Lava Jato na primeira instância.

Lula da Silva foi condenado por ter recebido vantagens ilícitas da construtora OAS. Entre as vantagens recebidas por Lula, de acordo com a acusação, está um apartamento triplex em Guarujá, São Paulo. Os benefícios teriam sido pagos pela empreiteira OAS, em troca de contratos com a empresa estatal Petrobras.

A condenação de nove anos e meio diz respeito à somatória das duas penas aplicadas ao ex-Presidente Lula da Silva.

“Entre os crimes de corrupção e de lavagem [branqueamento de capitais], há concurso material, motivo pelo qual as penas somadas chegam a nove anos e seis meses de reclusão, que reputo definitivas para o ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva”, lê-se na sentença.

O juiz também destacou que “a prática do crime de corrupção envolveu a destinação de 16 milhões de reais (4,3 milhões de euros) a agentes políticos do Partido dos Trabalhadores, um valor muito expressivo. Além disso, o crime foi praticado em um esquema criminoso mais amplo no qual o pagamento de propinas havia se tornado rotina”.

Noutro trecho da sentença, o juiz classifica a culpabilidade de Lula da Silva como “elevada”.

“O condenado recebeu vantagem indevida em decorrência do cargo de Presidente da República, ou seja, de mandatário maior. A responsabilidade de um Presidente da República é enorme e, por conseguinte, também a sua culpabilidade quando pratica crimes”, diz.

“Isso sem olvidar que o crime se insere em um contexto mais amplo, de um esquema de corrupção sistémica na Petrobras e de uma relação espúria entre ele o Grupo OAS. Agiu, portanto, com culpabilidade extremada, o que também deve ser valorado negativamente”, completou.

Lula da Silva foi absolvido das acusações de corrupção e lavagem de dinheiro relativas ao transporte e armazenamento do seu acervo presidencial após a saída do palácio do Planalto.

A sentença surge pouco menos de dez meses depois da acusação formal. A acusação apontava o antigo presidente vindo do Partido dos Trabalhadores como o “chefe” de um esquema de corrupção montado na Petrobras, a petrolífera brasileira.

Lula da Silva não será preso no imediato. O ex-Presidente só deverá começar a cumprir pena se a segunda instância ratificar a decisão.  O tribunal demora, em média, um ano e meio a analisar as sentenças de Moro, revela o jornal Folha de S. Paulo.

Na sentença, o juiz afirmou que a prisão imediata de um ex-presidente “não deixa de envolver certos traumas” e que a “prudência” recomenda que se aguarde o julgamento em segunda instância.

Lula da Silva sempre negou as acusações. O antigo Presidente responde ainda em quatro outros processos no âmbito da operação Lava Jato.

c/agências e imprensa brasileira

Músico de jazz sul-africano Ray Phiri morreu aos 70 anos

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– “Quando tudo o mais desaparece, o que sobra é a nossa arte”

O músico de jazz sul-africano Ray Phiri, que fundou a banda Stimela e atuou com Paul Simon, na digressão de “Graceland”, morreu hoje, de cancro, aos 70 anos, avançou a Associated Press.

O presidente sul-africano, Jacob Zuma, considerou a morte do músico “uma grande perda para a África do Sul e para toda a indústria musical”.

Phiri, vocalista e guitarrista, conhecido pela versatilidade no jazz, em ritmos indígenas sul-africanos e outros estilos, recebeu vários prémios musicais no seu país de origem.

Uma das últimas atuações de Ray Phiri foi festival Azgo, que se realizou na Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo, Moçambique, no passado dia 20 de maio.

“Ray Phiri foi sempre impulsionado por uma profunda curiosidade pelo mundo que o rodeia e pela paixão de fazer música, que se encontra profundamente enraizada no país onde nasceu, e nenhuma destas forças diminuiu com o passar dos anos”, lia-se na apresentação do programa do festival moçambicano.

“Sou um estudante da vida e jamais irei parar de descobrir, criar e explorar”, disse Phiri, citado pela organização do festival Azgo.

“Nunca foi meu objetivo fazer música comercial, mas sim, em vez disso, transformar a música sul-africana em algo respeitável. No final, quando tudo o mais desaparece, o que sobra é a nossa arte”, destacou o festival Azgo, no perfil do músico.

Fonte: Lusa